A TV que foi manchete

Uma das mais marcantes TVs do país, a Manchete foi ousada e inovadora. Com estrutura e conteúdo sofisticados, virou referência em jornalismo, novelas, infantis, e num carnaval grandioso. Adotou a excelência como princípio e dobrou apostas até mesmo diante de fracassos, alternando momentos de euforia com crises impensáveis.

Há quase 40 anos entrou no ar a Rede Manchete de Televisão, com vinhetas futuristas, superproduções inéditas do cinema, e programas requintados. Impressionou as concorrentes, o mercado e o público, com infra- que a colocava entre as mais modernas do mundo. Dois anos depois já era a terceira maior do país em cobertura e audiência, e vice em faturamento. Ameaçou até a Globo. Mas teve uma trajetória conturbada financeiramente, alternando êxitos surpreendentes com fortes crises, que a mantiveram em evidência por todo o tempo, protagonizando boas ou más manchetes.

Ousada, dobrava suas apostas não apenas diante dos sucessos. Respondeu também a tropeços com apostas ainda mais caras, e muitas vezes à custa de maiores e mais arriscados endividamentos. Se alternava de forma abrupta entre o cult e o trash, o requinte e o confisco, as estrelas e as tempestades, a superprodução e a tosquice, a elegância e o calote, o Brasil ideal e o mundo real. Do , prestigiado, à manchete de jornal, desacreditada. Fortes emoções que levaram aquela que chegou se anunciando como a “TV do ano 2000” a um fim precoce apenas nove meses antes da “virada do milênio”.

A História da TV Manchete

Fim da Tupi dá origem a Manchete e SBT

Dois anos antes de começar suas transmissões, Adolpho Bloch venceu a concorrência de quatro dos sete canais remanescentes da Rede Tupi, além do número 9 de São Paulo (ex-TV Excelsior). As cinco emissoras, (Rio, São Paulo, BH, Fortaleza e Recife) formavam uma das duas redes de televisão lançadas simultaneamente pelo último governo militar.

Além da Bloch Editores, participaram do processo o Jornal do Brasil, a Editora Abril, a Rádio Capital, o Grupo Silvio Santos, e outros quatro menores, totalizando nove candidatos. O beneficiado pela outra rede foi Silvio Santos, com quatro canais. O empresário lançou o SBT no mesmo dia da assinatura dos contratos de concessão, transmitindo a cobertura do evento ao vivo. O encontro ocorreu em 14 de agosto de 1980, num almoço promovido pela Manchete eu seu suntuoso edifício, e contou com a presença do Presidente da República, políticos, empresários e jornalistas. Já a Manchete, com prazo maior para estrear, ainda levaria quase dois anos para operar.

TV do futuro

Adolpho Bloch era aficionado por qualidade, e por isso constantemente renovava os equipamentos da editora. Partindo deste mesmo princípio, precisou de quase dois anos até que a TV Manchete chegasse ao nível esperado. Quase perdeu o prazo previsto no contrato assinado com o Governo Federal para estrear.

Bloch não poupou investimentos. Importou equipamentos de última geração, que sequer tinham sido lançados comercialmente no mundo, tendo que enviar funcionários para serem treinados nos EUA.

Ao mesmo tempo, Adolpho duplicou o já imponente prédio-sede de suas empresas, na praia do Flamengo, cartão postal do Rio de Janeiro. E instalou as antenas mais altas e potentes de cada praça, que irradiavam os sinais a mais de 200 quilômetros de raio. Os modernos transmissores davam à Manchete a melhor imagem, que chegavam a distâncias inimagináveis. Tudo isso com som estéreo, tecnologia que na época ainda nem tinha sido lançada comercialmente no Brasil.

História da TV Manchete

Um novo sinal no ar…

"No dia 5 de junho, a partir do Rio de Janeiro, a Rede Manchete de Televisão passa a integrar o Brasil através de uma cadeia nacional de emissoras. O compromisso com uma programação de qualidade marca uma nova etapa na TV"Peça publicitária veiculada em jornais e revistas em abril de 1983

A proposta era ser uma emissora moderna, jovem, com jornalismo forte (inspirado na BCC de Londres e na recém-inaugurada CNN americana), e programação voltada às classes A e B. Desta forma, se posicionava num segmento de mercado pouco atendido pelas demais emissoras. Mas financeiramente ousado…

Imagem de A TV que foi manchete
Adolpho Bloch em foto para vídeo sobre os 40 anos da revista Manchete

Aliança carioca

A viabilização da Manchete também teve a ajuda da TV Globo. Adolpho Bloch e Roberto Marinho eram amigos desde a década de 40, quando Bloch trabalhou para a Rio Gráfica, futura Editora Globo. Os empresários praticamente não competiam porque o mercado de revistas, terreno de Bloch, estava longe de ser a principal aposta da Globo. Boni, então superintendente de operações da líder, foi designado para ser uma espécie de consultor, atuando principalmente como uma espécie de coaching de Pedro Jack Kapeller, sobrinho de Bloch, que já era o diretor de operações da editora, e viria a acumular esta função na TV.

Segundo o próprio Boni, “a Globo fez o projeto técnico da Manchete“. Em troca, Bloch se comprometeu a buscar um público diferente ao da líder. Por isso não planejava entrar na briga pelo telespectador das , o principal produto da Globo. Bloch afirmou que não queria ser líder de audiência, mas sim “líder em qualidade”. Em troca, a Globo não faria investimentos pesados nas suas revistas. Este acordo, no entanto, já seria rompido em 1984, menos de um ano após a Manchete estrear.

Por Diogo Montano

Diogo Montano é Bacharéu em Ciência da Computação, pós graduado em Gestão de Negócios, e trabalha há quase vinte anos unindo duas coisas que sempre gostou: comunicação e tecnologia. Cresceu assistindo à Globo e Manchete(imagens sem interferências na baixada fluminense), e em 1999, ainda antes de entrar na faculdade, publicou a primeira versão deste site, logo após a venda da emissora. Atualmente trabalha como PM(Product Manager) no Globoplay.

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