1999: A venda da TV Manchete

O fim

Em Janeiro de 99, a emissora assinou um contrato com o Grupo Renascer em Cristo, propriedade de Sônia Hernandez. Pelo acordo, a Igreja Renascer exploraria a emissora, produzindo programas e recebendo os patrocínios, e em troca pagaria por mês R$ 80 milhões ao Grupo Bloch, como uma espécie de “aluguel”. A partir daí novas chamadas anunciando o que seria a “Nova Manchete” entravam no ar. A reexibição de “Pantanal” e o programa “Se Liga Brasil” continuavam na grade. Claudete Troiano trazia de volta o feminino “Mulher de Hoje”. O “Jornal da Manchete” também voltava ao ar. Porém, o acordo não deu certo e foi desfeito em fevereiro do mesmo ano, porque o governo considerou o arrendamento ilegal. Para ler os detalhes deste episódio, clique aqui.

A Nova Manchete, anunciada pelo Grupo Renascer de Comunicação: governo considerou ilegal o arrendamento da emissora, já que a concessão estava vencida.

A emissora entrou pelo ano de 1999 ainda com mais um problema: o grupo IBF reivindicava havia três anos na justiça a posse do canal. O Grupo Bloch teria que esperar um resultado positivo dessa liminar para vendê-la. A liminar saiu em abril do mesmo ano, e a emissora foi finalmente vendida no dia 16 de maio de 1999 para Amílcare Dallewo, dono da TV Ômega, que era a produtora do programa “Domingo Total” , exibido na emissora no ano anterior.

A venda

Parecia o fim de um pesadelo o término da reunião realizada no dia 16 de maio entre o grupo Bloch e a TVômega, onde ficou resolvida a venda da Rede Manchete de Televisão. O grande drama sofrido pelos funcionários, devido à falta dos pagamentos dos salários desde meados de agosto de 1998, parecia ter acabado. A emissora foi finalmente vendida para o empresário Amilcare Dallewo, dono da produtora independente Tv Ômega e um dos sócios da Teletv, empresa que explorou durante anos na TV o esquema de sorteios via participação telefônica com o prefixo 0900. Pelas negociações, Amilcare Dallevo alegou que assumiu as dívidas da TV Manchete com o governo federal e tambpem os salarios atrasados dos funcionários, totalizando 250 milhões de reais. Em troca levou as concessões da rede, com cinco emissoras de TV pelo Brasil.  A transação não enolveu os ativos e passivos da TV Manchete, logo ficaram de fora os equipamentos, os prédios e mais 80 milhões de reais em outras dívidas. O empresário planejava investir cerca de R$100 milhões em equipamentos e novas instalações no primeiro ano de operação. Ainda pelo acordo, as instações da Bloch Editores no Rio poderiam continuar sendo ocupadas durante os noventa dias seguintes.

Comunicado sobre a compra da Manchete pela TV Ômega/99

O empresário afirma que:
- Assumiu as dívidas com os trabalhadores e com o Governo Federal.
- A TV Manchete Ltda, com outras dívidas, prédios e equipamentos, foi adquirida por um outro grupo, formado por ex-banqueiros.
- Pagaria os salários atrasados da Manchete em prestações durante 12 meses
- Manteria a cabeça-de-rede no Rio de Janeiro
- Teria a sua TV uma programação de qualidade, focando sempre em faturamento

O drama dos últimos meses

A crise que a Rede sofreu durante seu último ano de vida, atingiu principalimente os funcionários. Desde agosto que ninguém via a cor do dinheiro. Tudo começou com a redução de investimentos dos anunciantes, principalmente, por conta do lançamento da novela Mandacaru que não repetiu o sucesso de público e faturamento conquistados pela sua antecessora Xica da Silva. A situação piorou com o investimento no vácuo feito em Brida. A novela não registrou o mínimo de cinco pontos, e foi retirada do ar pelo meio. A partir daí foi uma reação em cadeia: desacreditados, estrelas  deixaram a  Manchete rumo às outras emissoras, como o caso de Márcia Peltier e Raul Gil; a produção de programas foi parando aos poucos e funcionários entraram em greve. Durante esse período a emissora perdeu várias emissoras afiliadas, principalmente para a Rede Record em sua fase de expansão. Para complicar a situação, o grupo IBF moveu uma ação em Março de 1998 exigindo a posse da emissora, o que a impedia de ser vendida. Foram tentadas soluções rápidas, como a reprise do fenômeno Pantanal e uma parceria com o Grupo Renascer, que não foi considerada legal pela justiça. Em maio deste ano, saiu a limnar, dando posse da rede aos Bloch, podendo assim serem retomadas as negociações da venda da emissora.


Uma solução “criativa” para separar a empresa das concessões

Segundo afirmou o próprio Amilcare, a Tv Ômega assumiu somente a parte dos ativos. Os equipamentos foram vendidos a bancos e outras instituições. Além disso, não foi incluída na venda a produtora de programas Bloch Som e Imagem, criada em 1996 como artifício para o caso de a emissora ser embargada pela Justiça. A produtora que, teoricamente, produziu Xica da Silva e outros programas, conta ainda com o complexo de Água Grande e continua sob a custódia dos Bloch. Uma das promessas de Pedro Jack Kapeler, presidente das empresas Bloch, era que a produtora voltaria a fabricar programas em breve. Mas isso não chegou a acontecer.

O que pretendia a nova emissora

Segundo Amilcare, o objetivo principal da emissora seria o faturamento e prometeu para o mês de agosto mudanças radicais na programação da nova emissora, com o fortalecimento do jornalismo. O empresário contratou uma empresa especializada para escolher o nome novo da rede e já retirou do ar todos os logotipos e vinhetas relacionados à Rede Manchete. Inclusive o Jornal da Manchete provisoriamente passou a se chamar Primeira Edição.

O jornalismo voltou a produzir reportagens para o Primeira Edição que voltou a ter uma hora de duração. Voltaram ao ar ainda o Se liga Brasil, apresentado por Carlos Chagas, as transmissões de Tênis. Mas a programação foi recheada de programas de televendas, enquanto o empresário estruturava a nova emissora.

No dia 31 de agosto, o unico evento marcante que houve foi a interrupção do pagamento de quase todos os funcionários legados da antiga emissora. Muitos entraram na justiça, e sequer tiveram a baixa na carteira de trabalho. Segundo o sindicato dos radialistas do Rio, a TV Ômega descumpria assim uma promessa feita ao Ministério das Comunicações, de pagar os salários atrasados, e manter boa parte do quadro de funcionários.

Com data inicial prevista para agosto, a nova emissora só estrearia no dia 15 de novembro, gerada de São Paulo, e com um nome curioso: “RedeTV”. Ironicamente trouxe uma roupagem moderna, uma grade de programação baseada em jornalismo, seriados renomados, filmes clássicos, programas de entrevistas, e um infantil das 17h as 19hs. O foco, pasmem, eram as classes A e B. Mas as semelhanças com a sua antecessora parariam por aí. Depois de popularizar sua programação numa busca desesperada por audiência, a RedeTV! viraria sinônimo de TV popularesca, dando ênfase a programas sensacionalistas e fofocas da vida de celebridades e subcelebridades. Isso sem falar nos inúmeros processos que a emissora sofreria na justiça por dívidas trabalhistas dos funcionários da TV Manchete.

O fim do restante do grupo Bloch

Quando a Rede Manchete foi vendida, a emissora foi dividida em duas empresas: a parte “podre”, que Amilcare alega não ter levado, foi vendida a uma emrpesa chamada Hesed Participações, tendo a Bloch Editores como fiadora. No ano seguinte a venda, em 2000, a Hesed declarou falência, e com isso a editora foi responsabilizada pelas dívidas deixadas pela empresa. A Bloch não suportaria mais a situação e enrtraria em concordata preventiva. As revistas foram deixando de circular, funcionários entraram em greve, e a empresda decretou falência.