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1999: O fim da TV Manchete

Tentativa de arrendamento para a Igreja Renascer é reprovada pelo Governo, que aprova o plano de venda para a TV ômega numa transação fora do comum.

A emissora entrou pelo ano de 1999 com mais um problema: o grupo IBF reivindicava havia três anos na justiça a posse do canal. O Grupo Bloch teria que esperar um resultado positivo desta liminar para tentar vendê-la.

Também chegaria ao fim, em agosto, o prazo de três anos dado pelo governo, em 1996, para que a emissora saldasse débitos fiscais e trabalhistas, condição imposta para a renovação das concessões por mais quinze anos. Os cinco canais estavam, entre 96 e 99, funcionando com uma autorização provisória.

O futuro era ainda mais preocupante devido ao cenário macro-econômico: mesmo com crescimento de audiência e boas estréias, as crises asiática e russa de 1997/98 encareceram as dívidas dolarizadas da emissora, aumentaram o custo de aquisição de novos créditos (o governo dobrou a taxa selic), e fez despencar o investimento do mercado publicitário diante de um cenário de recessão futura.

Só um milagre

Em janeiro de 99, a Bloch assinou um contrato com a Igreja “Renascer em Cristo”, de Sônia Hernandez. Pelo acordo, a Igreja Renascer exploraria a emissora, produzindo programas, e receberia patrocínios. Em troca pagaria por mês R$ 80 milhões ao Grupo Bloch, como uma espécie de “aluguel”.

Uma nova vinheta entrou no ar, de novo sem a assinatura “Bloch”, que foi trocada por RGC (Rede Gospel de Comunicação). Também começaram a ser veiculadas chamadas sobre uma “Nova Manchete”. A re-exibição de “” e o programa “” continuariam na grade. Voltaram ao ar o , com Claudete Troiano, e o “”, que estavam paralisados devido ”às greves.

Um mês depois, porém, o acordo foi reprovado pelo Ministério das Comunicações, que não levou fé no fôlego financeiro da Renascer para honrar os débitos trabalhistas. Usou a lei de radiodifusão para acusar a ilegalidade da transação, já que de fato tratava-se de um arrendamento. Para ler os detalhes deste episódio, clique aqui.

De bem com a vida, Igreja Renascer

Chamada do programa diário da Bispa Sonia Hernandez, já durante o período que a emissora esteve arrendada para a Igreja Renascer,, jan 1999 .

A liminar saiu em abril do mesmo ano, e a emissora foi finalmente vendida no dia 16 de maio de 1999 para Amílcare Dallewo, dono da TV Ômega. A empresa era a produtora do “Domingo Total“, além de operar o serviço 0900 para todas as emissoras da época.

Comunicado sobre a compra da Manchete pela TV Ômega/99

Venda de concessões e empresa zumbi

Parecia o fim de um pesadelo o término da reunião realizada no dia 16 de maio entre o grupo Bloch e a TVômega, onde ficou resolvida a venda da Rede Manchete de Televisão. O grande drama sofrido pelos funcionários, devido à falta dos pagamentos dos salários desde meados de agosto de 1998, parecia ter acabado. A emissora foi finalmente vendida para o empresário Amilcare Dallewo, dono da produtora independente Tv Ômega e um dos sócios da TeleTV, empresa que explorou durante anos na TV o esquema de sorteios via participação telefônica com o prefixo 0900. Pelas negociações, Amilcare Dallevo alegou que assumiu as dívidas da TV Manchete com o governo federal e também os salários atrasados dos funcionários, totalizando 250 milhões de reais.

Em troca, levou as concessões da rede, com cinco emissoras de TV pelo Brasil.  A transação não envolveu os ativos e passivos da TV Manchete, logo ficaram de fora os equipamentos, os prédios e mais 80 milhões de reais em outras dívidas. O empresário planejava investir cerca de R$100 milhões em equipamentos e novas instalações no primeiro ano de operação. Ainda pelo acordo, as instalações da Bloch Editores no Rio poderiam continuar sendo ocupadas durante os noventa dias seguintes.

Entrevista com Amilcare Dallevo, logo após assumir a TV Manchete

O empresário afirma que:
- Assumiu as dívidas com os trabalhadores e com o Governo Federal.
- A TV Manchete Ltda, com outras dívidas, prédios e equipamentos, foi adquirida por um outro grupo, formado por ex-banqueiros.
- Pagaria os salários atrasados da Manchete em prestações durante 12 meses
- Manteria a cabeça-de-rede no Rio de Janeiro
- Teria a sua TV uma programação de qualidade, focando sempre em faturamento

O drama dos últimos meses

A crise que a Rede sofreu durante seu último ano de vida, atingiu principalimente os funcionários. Desde agosto que ninguém via a cor do dinheiro. Tudo começou com a redução de investimentos dos anunciantes, principalmente, por conta do lançamento da novela Mandacaru que não repetiu o sucesso de público e faturamento conquistados pela sua antecessora Xica da Silva. A situação piorou com o investimento no vácuo feito em Brida. A novela não registrou o mínimo de cinco pontos, e foi retirada do ar pelo meio. A partir daí foi uma reação em cadeia: desacreditados, estrelas  deixaram a  Manchete rumo às outras emissoras, como o caso de Márcia Peltier e Raul Gil; a produção de programas foi parando aos poucos e funcionários entraram em greve. Durante esse período a emissora perdeu várias emissoras afiliadas, principalmente para a Rede Record em sua fase de expansão. Para complicar a situação, o grupo IBF moveu uma ação em Março de 1998 exigindo a posse da emissora, o que a impedia de ser vendida. Foram tentadas soluções rápidas, como a reprise do fenômeno Pantanal e uma parceria com o Grupo Renascer, que não foi considerada legal pela justiça. Em maio deste ano, saiu a limnar, dando posse da rede aos Bloch, podendo assim serem retomadas as negociações da venda da emissora.


Uma solução “criativa” para separar a empresa das concessões

Segundo afirmou o próprio Amilcare, a Tv Ômega assumiu somente a parte dos ativos. Os equipamentos foram vendidos a bancos e outras instituições. Além disso, não foi incluída na venda a produtora de programas Bloch Som e Imagem, criada em 1996 como artifício para o caso de a emissora ser embargada pela Justiça. A produtora que, teoricamente, produziu Xica da Silva e outros programas, conta ainda com o complexo de Água Grande e continua sob a custódia dos Bloch. Uma das promessas de Pedro Jack Kapeler, presidente das empresas Bloch, era que a produtora voltaria a fabricar programas em breve. Mas isso não chegou a acontecer.

O que pretendia a nova emissora

Segundo Amilcare, o objetivo principal da emissora seria o faturamento e prometeu para o mês de agosto mudanças radicais na programação da nova emissora, com o fortalecimento do jornalismo. O empresário contratou uma empresa especializada para escolher o nome novo da rede e já retirou do ar todos os logotipos e vinhetas relacionados à Rede Manchete. Inclusive o Jornal da Manchete provisoriamente passou a se chamar Primeira Edição.

O jornalismo voltou a produzir reportagens para o Primeira Edição que voltou a ter uma hora de duração. Voltaram ao ar ainda o Se liga Brasil, apresentado por Carlos Chagas, as transmissões de Tênis. Mas a programação foi recheada de programas de televendas, enquanto o empresário estruturava a nova emissora.

No dia 31 de agosto, o unico evento marcante que houve foi a interrupção do pagamento de quase todos os funcionários legados da antiga emissora. Muitos entraram na justiça, e sequer tiveram a baixa na carteira de trabalho. Segundo o sindicato dos radialistas do Rio, a TV Ômega descumpria assim uma promessa feita ao Ministério das Comunicações, de pagar os salários atrasados, e manter boa parte do quadro de funcionários.

Com data inicial prevista para agosto, a nova emissora só estrearia no dia 15 de novembro, gerada de São Paulo, e com um nome curioso: “RedeTV”. Ironicamente trouxe uma roupagem moderna, uma grade de programação baseada em jornalismo, seriados renomados, filmes clássicos, programas de entrevistas, e um infantil das 17h as 19hs. O foco, pasmem, eram as classes A e B. Mas as semelhanças com a sua antecessora parariam por aí. Depois de popularizar sua programação numa busca desesperada por audiência, a RedeTV! viraria sinônimo de TV popularesca, dando ênfase a programas sensacionalistas e fofocas da vida de celebridades e subcelebridades. Isso sem falar nos inúmeros processos que a emissora sofreria na justiça por dívidas trabalhistas dos funcionários da TV Manchete.

O fim do restante do grupo Bloch

Quando a Rede Manchete foi vendida, a emissora foi dividida em duas empresas: a parte “podre”, que Amilcare alega não ter levado, foi vendida a uma emrpesa chamada Hesed Participações, tendo a Bloch Editores como fiadora. No ano seguinte a venda, em 2000, a Hesed declarou falência, e com isso a editora foi responsabilizada pelas dívidas deixadas pela empresa. A Bloch não suportaria mais a situação e enrtraria em concordata preventiva. As revistas foram deixando de circular, funcionários entraram em greve, e a empresa decretou falência.

Por Diogo Montano

Diogo Montano é Bacharéu em Ciência da Computação, pós graduado em Gestão de Negócios, e trabalha há quase vinte anos unindo duas coisas que sempre gostou: comunicação e tecnologia. Cresceu assistindo à Globo e Manchete(imagens sem interferências na baixada fluminense), e em 1999, ainda antes de entrar na faculdade, publicou a primeira versão deste site, logo após a venda da emissora. Atualmente trabalha como PM(Product Manager) no Globoplay.

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