Estrelas e público fogem durante gestão do grupo IBF

Em 1992, a dívida da Manchete com o Banco do Brasil chegou a 90 milhões de dólares. Este valor começou com cheques sem fundo usados pela emissora em pagamentos durante os anos de 1988 e 1989. O diretor do BB cobriu os valores através de empréstimos a juros mais altos que em uma operação normal, uma espécie de cheque especial da indústria.

Ataque político

Collor já era Presidente em 1990, e mudou drasticamente a postura dos bancos estatais com as empresas de Adolpho Bloch. Aparentemente porque, durante as eleições de 1989, Bloch ignorou o então novato candidato, sem acreditar no seu potencial para vencer as eleições. O empresário simplesmente não o recebeu, como fez com outros presidenciáveis.

Em 1990, o BB pediu o arresto dos bens da emissora para o pagamento da dívida. No ano seguinte, Bloch renegociou o montante, mas já havia rumores de que o Presidente da República queria entrar na televisão para combater a TV Globo, através de duas iniciativas, ambas em nome de amigos: a formação da Rede OM, pelo deputado paranaense José Carlos Martinez, num projeto de mais longo prazo; e a TV Manchete, a seu ver uma emissora com ótima , audiência formada, e dependente financeiramente de dinheiro público naquele momento. Além de não simpatizar com Bloch, a Manchete era ideal porque estava em alta e era uma rede bem formada.

Matéria de O Globo, sobre sessão da Câmara onde o Deputado Lafaiete Torres denunciava o plano de Collor, em 1991.
Matéria de O Globo, sobre sessão da Câmara onde o Deputado Lafaiete Torres denunciava o plano de Collor, em 1991.

Collor proibiu o BB de facilitar as coisas para a empresa, levando a emissora a um ataque especulativo sobre sua capacidade financeira, o que afastava financiadores, artistas e profissionais. Além disso, Bloch foi avisado de que, se não arrumasse um comprador pra emissora, as concessões não seriam renovadas em 1996, quando se completariam 15 anos de vigência do contrato de concessão dos canais da emissora, com renovação por igual período, desde que sejam atendidas determinadas condições previstas em Lei. Não ter dívidas trabalhistas e nem com o governo são exemplos.

Ainda em 1991, o deputado federal Paulo Octavio de Carvalho, da base de Collor, chegou a negociar a compra da emissora, mas acabou desistindo. No fim do ano, apareceu Hamilton Lucas, um proeminente empresário que enriqueceu rapidamente depois que se tornou fornecedor de raspadinhas e talonários de cheques dos bancos públicos. Hamilton chegou a pagar uma das parcelas da dívida do BB em dezembro de 1991, antes mesmo de assumir a Manchete.

Adolpho Bloch não queria vender a emissora

Como última inciativa para tentar evitar a venda da emissora, o empresário foi a Brasília pedir ao Ministro das Comunicações influenciasse o Banco do Brasil a perdoar a dívida, cobrando somente pelo valor principal acrescido da correção monetária, sem juros. Bloch alegava que não queria pagar juros sobre juros. O ministro falou que ele deveria fazer o pedido diretamente a Collor.

O empresário foi até o Presidente e ouviu de Collor que Adolpho, um estrangeiro que se orgulhava de sua origem e por tudo o que construiu, “deveria pagar sua dívida com o povo brasileiro” (já que o Banco do Brasil tem como principal sócio o governo). Bloch chorou e disse que nunca tinha precisado vender nada até então, nunca tinha atrasado salários, e que não queria vender a Manchete. Collor então respondeu: “então não venda, Adolpho”. O empresário saiu feliz entendendo que seu pedido tinha sido aceito. Pura ironia.

A venda de 92

Para piorar, a superprodução naufragou. Investimentos como a nova sede de SP e a estratégia peculiar de vender antecipadamente os espaços publicitários do ano seguinte, só aumentavam o passivo, as dívidas de fato da empresa. Não teve jeito. o Grupo Bloch acabou vendendo 49% da Rádio e Televisão Manchete Ltda para um proeminente empresário que vinha se destacando no mercado, Hamilton Lucas de Oliveira, dono do grupo IBF, um conglomerado de gráficas de formulários corporativos, vales-transportes, bilhetes de loteria e raspadinhas. Estes dois últimos produtos, em grande parte, em contratos com os governos federal e paulista.

Imagem de História da Rede Manchete -
Anúncio publicado em 1987, quando Hamilton Lucas de Oliveira fundiu cinco empresas, formando a Indústria Brasileira de Formulários

Pelo acordo, Hamilton Lucas receberia 49% das ações e também o controle gerencial da empresa. Bloch ficaria com os 51% restantes, mas abriria mão da gestão. A ideia era que, cumpridos os pagamentos, Bloch vendesse os outros 51% para Hamilton. O novo “dono” pagaria 10 milhões de dólares à família Bloch, e assumiria as dívidas, inclusive os salários atrasados. A estimativa era de que este total chegasse a 100 milhões de dólares.

Planos coerentes

A transação ocorreu no início de junho de 1992. Na semana seguinte Hamilton deu entrevista esclarecendo seus planos iniciais:

  • Arrumar as contas: controle de gastos, evitando altos investimentos.
  • Transferir a sede para São Paulo, com a gestão do jornalismo, área comercial e a linha de shows. A Manchete ainda era muito “carioca”, e já tinha uma estrutura TV novinha em SP, afinal, dois anos antes tinha inaugurado novas instalações na cidade. Dessa forma, poderia perfeitamente estar mais próxima do mercado publicitário e também do maior mercado consumidor do país. A nova sede tinha estrutura preparada para ser a “cabeça de rede”. Na avaliação do grupo IBF, era melhor que as instalações do Rio.
  • Fazer uma auditoria detalhada nas contas da Manchete;
  • A dramaturgia continuaria no Rio, baseada no complexo de TV de Água Grande, e assim a emissora poderia deixar o prédio da Editora.
  • As únicas novidades na programação previstas seriam:
    • Clodovil em um programa de entrevistas diário, noturno, ao vivo, com participação do jornalismo. Claro foco em faturamento.
    • Osmar Santos à frente da cobertura esportiva que já estava comprada, como o Paulista, Copa do Brasil e Indy de 93.
    • Conteúdos de dramaturgia, enlatados a princípio, adquiridos da TV Cultura e de outros países, para a entrar na faixa tradicional das tão logo Amazônia chegasse ao fim.
    • A produção de dramaturgia continuaria baseada no Rio, e se criaria uma empresa produtora onde a Manchete entraria como parceira. Um modelo que atualmente a Record usa com a Casablanca. Daniel Filho estava interessado.

Debandada de sucessos

Os principais nomes da Manchete começaram a deixar a emissora diante da incerteza da real recuperação da empresa, da pouca abertura criativa (já que a emissora se tornaria eficiente em custos), e da mudança forçada para São Paulo. Era a hora de avaliar propostas e pensar se renovariam seus contratos.

Documento Especial

O primeiro a sair foi o Televisão Verdade, a maior audiência da Manchete. Como o título do programa pertencia ao diretor Nelson Hoinnef, a Manchete preencheu o horário com o genérico , ainda na gestão dos Blochs. Copiava a estética e criava uma confusão nos nomes, propositalmente. O programa apelou mais nos temas e imagens e foi contestado pelo SBT pela semelhança da marca. Mas foi, durante aquele ano, a maior audiência da Manchete, com médias de 10 pontos. Saiu do ar porque o nível baixou demais, e como sempre, não atraiu anunciantes relevantes.

Angélica

Ficou em cima do muro entre Globo e SBT. Na Manchete tinha a promessa de ganhar uma atração nas tardes de domingo, além do Clube diário. Na Globo, iria para as novelas, e talvez ganhasse um programa aos sábados, como o . No SBT ela teria também um programa pra jovens, e poderia manter um diário infantil desde que fosse num horário diferente de Mara. A apresentadora só tomou sua decisão em 93, quando se transferiu para o SBT.

Atores e atrizes

Cristiana Oliveira, Tatiana Issa, Ranaldi, José de Abreu, Marcos Palmeira, e muitos atores e atrizes que permaneciam na Manchete trataram de aceitar convites da Globo, principalmente, mas também do SBT (Jussara Freire, Jandira Martini, Marcos Caruso, etc.)

Leila Cordeiro e Eliakim Araujo

O casal estava de férias quando a IBF assumiu o controle da emissora. Com seus contratos encerrando em julho de 1992, quase cederam ao convite de Silvio Santos antes de voltarem ao ar. Também recusaram uma proposta da Rádio Jornal do Brasil (RJ). Depois de algum suspense, porém, acabaram renovando com a Manchete por mais um ano. Mas impuseram condições: salário corrigido, aumento de 60% pela mudança para São Paulo, alm de casa paga pela emissora na capital paulista. Chegaram a um acordo e ficaram na Manchete com contrato válido até julho de 1993.

No entanto, romperam unilateralmente o compromisso no fim de dezembro, a 7 meses do fim do acordo. Alegaram falta de condições de trabalho. De fato o grupo IBF não investiu em novos equipamentos, e além da falta de profissionais, a estrutura de uma forma geral estava se deteriorando. O casal já tinha destino certo: apresentar o Jornal do SBT, substituindo Lilian Witte Fibe, que estava de saída para assumir o Jornal da Globo.

Estrearam em fevereiro de 1993, mas na segunda edição do Aqui Agora, que estreava para bater de frente com o Jornal Nacional, dentro de uma estratégia de Silvio Santos para fortaleceer a faixa nobre contra a novela global que estava por vir (Renascer seria primeira novela global de Benedito Ruy Barbosa depois do fenômeno ), e se preparar também para a faixa de novelas que o canal lançaria no ano seguinte, com Éramos Seis. A missão do casal à frente do Aqui Agora terminou em abril quando assumiram finalmente o Jornal do SBT, período onde ganharam ainda mais visibilidade, e de uma forma mais informal do que exigiam os jornais principais das emissoras. Cativaram ainda mais o público, mantendo prestígio, o que os tornaria pra sempre uma referência na TV.

Outros profissionais

No restante do jornalismo da Manchete, Alice Maria, que tinha vindo anos antes da Globo, se indispôs com a nova direção. Os executivos reclamavam dos baixos índices de audiência dos produtos do setor (como se o jornalismo não fosse impactado pelo desempenho de toda a grade). Com ela saíram também Renato Machado e Leilane Neubarth, que voltaram à Globo, e mais um punhado de profissionais de fora do vídeo, além de repórteres e correspondentes.

Leda Nagle fechou com o SBT, onde teria um programa semanal inspirado no quadro de entrevistas que levava ao ar todo sábado desde a época do Jornal Hoje. O Edição da Tarde e a foram extintos, engolidos pelo Almanaque, que passou a ir ao ar das 11h às 14h. Angélica entrava em seguida com um Clube da Criança maior, totalizando quatro horas de duração. Às 18h, Marcia Peltier arrematava com o programa de debates que levava seu nome. A pesada carga de trabalho do Clube desagradava a loira, que também não viu movimentos efetivos para o desenvolvimento de sua prometida atração dominical.

Wilson Cunha, diretor de cinema da Manchete e apresentador do Cinemania, partiu para a recém criada Globosat, onde assumiu o Entretenimento, responsável naquela época pelo canal Multishow. O mesmo caminho seguiram muitos profissionais da técnica e outros setores que, ou não desejavam se mudar para SP, ou não queriam “comprar” o risco de permanecer na nova Manchete.

Quem ficou

, o único novo produto relevante neste período, marcou época e consagrou Clodovil em sua melhor fase como apresentador, sendo a maior audiência do canal. O programa diário registrava média de 5 pontos em São Paulo, só perdendo para o sensacionalista Documento Verdade e para as pornochanchadas do Cinema Nacional. O , sem uma novela boa o sucedendo, não passava da média de 3 pontos, muito eventualmente chegava a cinco.

Marcia Peltier tinha um programa diário de com plateia nas tardes da emissora e não aceitou ser transferida para São Paulo. Conseguiu permanecer com seu programa ao vivo, direto do Rio de Janeiro.

Imagem 5 de História da Rede Manchete - 5
Em janeiro de 1993, a Manchete ficava entre 4a e 6a colocações no ranking de São Paulo. Nesta semana conseguiu por pouco superar a Record e conseguiu a 4a posicao. Mas o normal era perder também para a Cultura, na maior parte das semanas esteve em sexto., sói ganhando da TV Gazeta.

Investigações

A gestão do grupo IBF começou honrando as parcelas das dívidas com Banco do Brasil, Caixa (FGTS), INSS, e pagando a parte da família Bloch. Mas parou logo. Na imprensa, surgiam rumores de que o empresário estaria envolvido com o esquema PC pelos contratos superfaturados dos bilhetes e raspadinhas.

O fato é que todo mundo queria saber como uma pessoa desconhecida, cujo principal cliente era o governo federal, surge como o único exitoso na compra da Manchete…

Quando decidiu suspender os pagamentos, o empresário alegou que a dívida da Manchete não era de 100, mas sim de 140 milhões de dólares. Por isso não conseguiu honrar os pagamentos que tinha acordado com os credores e “parou para se re-estruturar”, cogitando vender imóveis da emissora para conseguir pagar o que devia, incluindo o Complexo de Água Grande no Rio. Tamb’em cogitou vender as emissoras de Fortaleza-CE e Recife-PE.

Segundo o empresário, a auditoria permitiu identificar um tipo de dívida que até então lhe era desconhecida: a emissora desde os últimos anos da década de 80 vendia os espaços publicitários do ano seguinte, adiantando a receita e ficando com a entrega como passivo. E muitas vezes prometendo audiências que não conseguiria (como em Amazônia), ou aquém do que os programas de fato tiveram (neste caso o anunciante saia no lucro), o que a levava a criar novos espaços para compensar.

Na pratica, era como se Hamilton tivesse comprado a Manchete sem que a emissora tivesse receita até o fim do ano, pois já tinha recebido no ano anterior. Foi também essa prática que impediu a Manchete de faturar mais com Pantanal, pois havia vendido os espaços da novela um ano antes, considerando médias de 5 pontos. A novela atingiu mais de 30. Compromissos assumidos com o governo, funcionários e a própria família Bloch deixaram de ser pagos.

TV do trabalhador

Em dezembro, o auge da crise de Fernando Collor, que culminou com sua renuncia no fim do mês, os salários da Manchete não foram pagos, e teve inicio uma greve no Rio. No início de 1993, funcionários das outras filiais também pararam, com todas as emissoras próprias em greve (Rio, SP, BH, Recife, Fortaleza), além da sucursal de Brasília. Collor, então oponente de Bloch e supostamente próximo ao grupo IBF, tinha renunciado à presidência.

Apesar dessa especulação, no entanto, não foi provada ligação nem pessoal e nem comercial direta entre os dois. Mas não ter Collor no governo parecia um cenário favorável a Adolpho Bloch e desfavorável para Hamilton porque seus contratos com o governo estavam sendo questionados, junto com a maioria dos fornecedores, diga-se de passagem.

A CUT, por outro lado, preparava uma proposta ao governo na qual a TV seria gerida pelos funcionários através de uma fundação. O Banco Pactual participou do desenho desta proposta. Brizola chegou a apoiar o projeto e consultar Roberto Marinho sobre a ideia, mas o presidente da Globo alertou que levantar uma emissora com dívidas estruturais como a Manchete naquele momento exigiria muita experiência em Televisão.

Uma fonte que participou deste plano relatou que, quando avaliaram a situação financeira com lupa, a dívida da Manchete era “impagável”, não havendo plano comercial viável. A opção foi pelo modelo de fundação, num desenho onde o governo fosse proprietário e gestor.

Volta pro papai…

Diante do caos, Adolpho Bloch entrou com uma liminar alegando que a IBF não estava cumprindo com o contrato firmado com bancos e órgãos públicos, e nem com os funcionários. Como agravante, denunciou a intenção de Hamilton, de alienar parte do patrimônio da empresa, que ainda era 51% de propriedade dos Blochs. A justiça deu ganho de causa para os antigos proprietários, com o direito de arrombarem a porta da sede em SP caso os gestores da emissora se negassem a recebê-los. Bloch foi ovacionado pelos grevistas em frente à sede da Manchete no Rio e pediu que todos voltassem ao trabalho, pois resolveria os atrasos salariais em 30 dias.

CUT, Bloch e IBF enviaram planos para a recuperação da emissora ao Ministério das Comunicações. Um mês depois, o Presidente Itamar Franco cancelou a transferencia da Manchete para o grupo IBF e re-estabeleceu o comando da empresa para Adolpho Bloch, que já estava de volta havia 1 mês graças à liminar da justiça.

A IBF continuou recorrendo, até que em 1999 perdeu definitivamente a causa.

Por Diogo Montano

Diogo Montano é Bacharéu em Ciência da Computação, pós graduado em Gestão de Negócios, e trabalha há quase vinte anos unindo duas coisas que sempre gostou: comunicação e tecnologia. Cresceu assistindo à Globo e Manchete, canais de tv que tinham as melhores imagens da região. Em 1999, ainda antes de entrar na faculdade, publicou a primeira versão deste site, logo após a venda da Manchete.

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