Estrelas e público fogem durante gestão do grupo IBF

Em 1992 Collor estava sendo massacrado pela opinião pública pelas suspeitas de corrupcão com PC Farias, o que fazia a crise econômica do país parecer ainda mais intansponível. Outro fator externo importante é o fato do Presidente da República ter sido o único que não apoiava a Manchete, devido ao apoio nada velado que Bloch deu a Brizola nas eleições, e ainda ter ignorado completamente o então pouco promissor candidato do PRN. Desta forma, não adiantaria Adolpho Bloch chorar as pitangas com o Presidente como fazia de costume.

Adolpho Bloch não queria vender a emissora

Como última inciativa para tentar evitar a venda da emissora, o empresário foi a Brasília pedir ao Ministro das Comunicações que conseguisse que o Banco do Brasil perdoasse a divida e cobrasse somente pela correção. Bloch alegava que não queria pagar juros sobre juros. O ministro falou que ele fizesse o pedido diretamente a Collor. O empresário então foi até o Presidente, fez o pedido. Collor respondeu que ele, um estrangeiro que se orgulhava de sua origem e por tudo o que construiu, “deveria pagar sua dívida com o povo brasileiro” (já que o Banco do Brasil tem como principal sócio o governo). Bloch chorou e disse que nunca tinha precisado vender nada até então, nunca tinha atrasado salários, e que não queria vender a Manchete. Collor então respondeu: “então não venda, Adolpho”. O empresário saiu feliz entendendo que seu pedido tinha sido aceito. Pura ironia.

A venda

Para piorar, a superprodução Amazônia naufragou. Investimentos como a nova sede de SP e a estratégia peculiar de vender antecipadamente os espaços publicitários do ano seguinte, só aumentavam o passivo, as dívidas de fato da empresa. Não teve jeito. o Grupo Bloch acabou vendendo 49% da Rádio e Televisão Manchete Ltda para um proeminente empresário que vinha se destacando no mercado, Hamilton Lucas de Oliveira, dono do grupo IBF, um conglomerado de gráficas de formulários corporativos, vales-transporte, bilhetes de loteria, e raspadinhas, estes dois últimos produtos basicamente em contratos com os governos federal e paulista.

O acordo dava 49% das ações ao empresário, e também o controle da empresa. Bloch ficaria com 51% das ações, e entregaria a gestão. A ideia era que, cumpridos os pagamentos, Bloch vendesse os outros 51% para Hamilton. O novo “dono” pagaria 10 milhões de dólares à família Bloch, e assumiria as dívidas da emissora, inclusive os salários atrasados. A estimativa era de que este total fosse de 100 milhões de dólares.

Planos coerentes

A transação ocorreu no início de junho de 1992. Na semana seguinte Hamilton deu entrevista esclarecendo seus planos iniciais:

  • Arrumar as contas, sem grandes investimentos nem gerar endividamentos novos.
  • Levar a sede para São Paulo, junto com a gestão do jornalismo, área comercial e a linha de shows. A Manchete ainda era muito “carioca”, e já tinha uma estrutura TV novinha em SP, afinal dois anos antes tinha inaugurado novas instalações na cidade, e logo, poderia perfeitamente estar mais próxima do mercado publicitário e do maior mercado consumidor do país. A nova sede tinha estrutura perfeitamente preparada para ser uma “cabeça de rede”. Na avaliação do grupo IBF, era melhor que as instalações do Rio.
  • Fazer uma auditoria detalhada nas contas da Manchete;
  • A dramaturgia continuaria no Rio, baseada no complexo de TV de Água Grande, e assim a emissora poderia deixar o prédio da Editora.
  • As únicas novidades na programação previstas seriam:
    • Clodovil num programa de entrevistas diário, noturno, ao vivo, com presença do jornalismo. Claro foco em faturamento.
    • Osmar Santos à frente da cobertura esportiva que já estava comprada, como o Paulista, Copa do Brasil e Indy de 93.
    • Conteúdo de dramaturgia, enlatado a princípio, adquiridos da TV Cultura e de outros países, para a entrar na faixa tradicional das novelas tão logo Amazonia chegasse ao fim.
    • A produção de dramaturgia continuaria baseada no Rio, e se criaria uma empresa produtora onde a Manchete entraria como parceira. Um modelo que atualmente a Record usa com a Casablanca. Daniel Filho estava interessado.

Debandada de estrelas

Os principais nomes da emissora começaram a debandar diante da incerteza da real recuperação da emissora, da aparente pouca abertura criativa (já que a emissora se tornaria eficiente em custos), e alguns incomodados com mudança para São Paulo. Era a hora de avaliar propostas e pensar se renovariam seus contratos. O primeiro a sair foi o Documento Especial Televisão Verdade, a maior audiência da Manchete. Como o título do programa pertencia ao diretor Nelson Hoinnef, a Manchete preencheu o horário com genérico Manchete Especial Documento Verdade, ainda na gestão dos Blochs. Copiava a estética e criava uma confusão nos nomes, propositalmente. O programa apelou mais nos temas e imagens, foi contestado pelo SBT pela semelhança na marca, mas foi durante aquele ano, a maior audiência da Manchete, com médias de 10 pontos. Mas saiu do ar porque o nível baixou, e como sempre, não atraiu anunciantes relevantes.

Angélica ficou em cima do muro entre Globo e SBT. Na Manchete tinha a promessa de ganhar uma atração nas tardes dos domingos, além do Clube diário. Na Globo, iria para as novelas, e talvez um programa aos sábados como o Milk Shake. No SBT, ela teria também um programa pra jovens, e poderia manter um diário infantil desde que fosse num horário diferente de Mara. Só se decidiu já em 1993, optando pelo SBT.

Cristiana Oliveira, Tatiana Issa, Helena Ranaldi, José de Abreu, Marcos Palmeira, e muitos atores e atrizes que permaneciam na Manchete trataram de aceitar convites da Globo, principalmente, mas também do SBT (Jussara Freire, Jandira Martini, Marcos Caruso, etc.)

Leila Cordeiro e Eliakim Araujo estavam em fim de férias, e com o contrato encerrando em julho daquele ano, quase cederam ao convite de Silvio Santos. Também recusaram uma proposta da Rádio Jornal do Brasil (RJ) e acabaram depois de algum suspense renovando com a Manchete por mais um ano. Mas impuseram condicões: salário corrigido, aumento de 60% pela mudança para Sao Paulo, além de casa paga pela emissora na capital paulista. Chegaram a um acordo e ficaram na Manchete com contrato válido até julho de 1993. No entanto, romperam unilateralmente o compromisso no fim de dezembro, a 7 meses do fim do contrato, alegando falta de condições de trabalho. De fato o grupo IBF não investiu em novos equipamentos, e além da falta de profissionais, a estrutura de uma forma geral estava muito largada. O casal já tinha destino certo: apresentar o Jornal do SBT substituindo Lilian Witte Fibe, que estava de saída para assumir o Jornal da Globo. Estrearam em fevereiro de 1993 na nova emissora, mas na segunda edição do Aqui Agora, que estreava para bater de frente com o Jornal Nacional, dentro de uma estratégia de Silvio Santos para fortaleceer a faixa nobre contra a novela global que estava por vir (Renascer seria primeira novela global de Benedito Ruy Barbosa depois do fenômeno Pantanal), e se preparar também para a faixa de novelas que o canal lançaria no ano seguinte, com Éramos Seis. A missão do casal à frente do Aqui Agora terminou em abril quando assumiram finalmente o Jornal do SBT, período onde ganharam ainda mais visibilidade, e de uma forma mais informal do que exigiam os jornais principais das emissoras. Cativaram ainda mais o público, mantendo prestígio, o que os tornaria pra sempre uma referência na TV.

No restante do jornalismo da Manchete, Alice Maria, que tinha vindo anos antes da Globo, se indispôs com a nova direção que reclamava dos baixos índices de audiência que os produtos atingiam (como se o jornalismo não fosse impactado pelo desempenho de toda a grade). Com ela saíram Renato Machado e Leilane Neubarth para a Globo, e mais um punhado de profissionais de fora do vídeo, além de repórteres e correspondentes.

Leda Nagle fechou com o SBT onde teria um programa de semanal inspirado no quadro de entrevistas que levava ao ar todo sábado desde a época do Jornal Hoje. O Edição da Tarde acabou sendo extinto e o Almanaque, outra marca registrada deste período, foi antecipado para as 11h, engolindo Manchete Esportiva e o telejornal vespertino, até as 14h, quando Angélica entrava em cena com seu Clube da Criança mais longo, com quatro horas de duração. A carga de trabalho do clube também era um problema para a rotina da apresentadora, que não viu movimentos para viabilizar sua atração dominical.

Wilson Cunha, diretor de cinema da Manchete e apresentador do Cinemania, foi para a recém nascida Globosat, onde assumiu o Entretenimento, que na época se resumia ao Multishow. E o mesmo fizeram vários profissionais da técnica e outros setores que não aceitaram a mudança para SP ou não quiseram comprar o risco de permanecer na emissora dos Blochs.

Clodovil Abre o Jogo, o único novo produto relevante neste período, marcou época e consagrou Clodovil em sua melhor fase como apresentador, sendo a maior audiência diária do canal, só perdendo para o sensacionalista semanal Documento Verdade, e para as pornochanchadas do Cinema Nacional. Tinha uma média de 5 pontos em São Paulo. O Jornal da Manchete, sem uma novela boa o sucedendo, chegava a médias de 3 pontos, no máximo cinco.

Marcia Peltier tinha um programa diário de entrevistas e debates com plateia nas tardes da emissora desde 1991, mas não aceitou ser transferida para São Paulo e conseguiu permanecer fazendo seu programa ao vivo a partir do Rio de Janeiro.

Em janeiro de 1993, a Manchete ficava entre 4a e 6a colocações no ranking de São Paulo. Nesta semana conseguiu por pouco superar a Record e conseguiu a 4a posicao. Mas o normal era perder também para a Cultura, na maior parte das semanas esteve em sexto., sói ganhando da TV Gazeta.

Investigação nos outros é refresco

A gestão do grupo IBF começou honrando as parcelas das dívidas com Banco do Brasil, Caixa (FGTS), INSS, e pagando a parte da família Bloch. Mas parou logo. Na imprensa, rumores que o empresario estava envolvido com o esquema PC pelos contratos superfaturados dos bilhetes e raspadinhas. Ele se defendia alegando que as comparações de seu preço com outros levava em conta preços de venda com preços de custo. O fato é que todo mundo queria saber como uma pessoa desconhecida, cujo principal cliente era o governo federal, surge como o único exitoso na compra da Manchete…

Para suspender os pagamentos, o empresário alegou que a dívida da Manchete não eram os 100 milhões alegados, mas sim de 140 milhões de dólares. Por isso não conseguiu honrar os pagamentos que tinha acordado com os credores e parou para se re-estruturar, cogitando vender imóveis da emissora para conseguir pagar o que devia incluindo o Complexo de Água Grande no Rio.

Segundo o empresário, a auditoria permitiu identificar um tipo de dívida que até então lhe era desconhecida: a emissora desde os últimos anos da década de 80 vendia os espaços publicitários do ano seguinte, adiantando a receita e ficando com a entrega como passivo. E muitas vezes prometendo audiências que não conseguiria (como em Amazônia), ou aquém do que os programas de fato tiveram (neste caso o anunciante saia no lucro), o que a levava a criar novos espaços para compensar. Foi como se Hamilton comprasse a Manchete sem que a emissora tivesse receita até o fim do ano, pois já tinha recebido no ano anterior. Foi também essa prática que impediu a Manchete de capitalizar com Pantanal o que deveria, pois havia vendido os espaços da novela um ano antes prevendo médias de 5 pontos, quando na verdade a novela atingiu mais de 30. Compromissos assumidos com o governo, funcionários e a próipria família Bloch deixaram de ser honrados.

TV do trabalhador

Em dezembro, por acaso o auge da crise de Fernando Collor, que culminou com sua renuncia no fim do mês, os salários da Manchete não foram pagos. Funcionários entraram em greve no Rio. No início de 1993 funcionários estavam em greve nas outras cidades onde havia emissoras próprias (Rio, SP, BH, Recife, Fortaleza), e na casa da Manchete em Brasília. Collor tinha renunciado à presidência, então oponente de Bloch e supostamente próximo ao grupo IBF. Apesar dessa especulação, no entanto, não foi provada ligação nem pessoal e nem comercial direta entre os dois. Mas não ter Collor no governo parecia um cenário favorável a Adolpho Bloch e desfavorável para Hamilton porque seus contratos com o governo estavam sendo questionados, junto com a maioria dos fornecedores, diga-se de passagem.

A CUT, por outro lado, preparava uma proposta ao governo na qual a TV seria gerida pelos funcionários através de uma Fundação. O Banco Pactual participou do desenho desta proposta. Brizola chegou a apoiar o projeto e consultar Roberto Marinho sobre a ideia, mas o presidente da Globo alertou que levantar uma emissora com dívidas estruturais como a Manchete naquele momento exigiria muita experiencia em Televisão. Uma fonte que participou da avaliação deste plano relatou que, quando avaliaram a situação financeira com lupa, a dívida da Manchete era “impagável”, não havia plano comercial com sucesso possível, a não ser que a empresa recebesse doações a fundo perdido, o que faria sentido num desenho onde o governo fosse proprietário e mantenedor através de uma Fundação.

Volta pro papai…

Diante do caos, Adolpho Bloch entrou com uma liminar alegando que a IBF nao estava cumprindo com o contrato combinado com bancos e órgãos públicos e nem com os funcionários, e o agravante de estar planejando alienar parte do patrimônio da empresa, que pertencia 51% aos Blochs. A justiça deu ganho de causa para os antigos proprietários, com direito a arrrombarem a porta da sede em SP caso os gestores da emissora se negassem a recebê-los. Bloch foi ovacionado pelos grevistas em frente à sede da Manchete no Rio e pediu que todos voltassem ao trabalho, pois resolveria os atrasos salariais em 30 dias.

CUT, Bloch e IBF enviaram planos para a recuperação da emissora ao Ministério das Comunicações. Um mês depois, o Presidente Itamar Franco cancelou a transferencia da Manchete para o grupo IBF e re-estabeleceu o comando da empresa para Adolpho Bloch, que já estava de volta havia 1 mês graças à liminar da justiça.

A IBF continuou recorrendo, até que em 1999 perdeu definitivamente a causa.