A TV que foi Manchete

Uma das mais marcantes TVs do país, a Manchete foi ousada e inovadora. Com estrutura e conteúdo sofisticados, virou referência em jornalismo, novelas, infantis, e num carnaval grandioso. Adotou a excelência como princípio e dobrou apostas até mesmo diante de fracassos, alternando momentos de euforia com crises impensáveis.

Há quase 40 anos entrou no ar a Rede Manchete de Televisão, com vinhetas futuristas, superproduções inéditas do cinema, e programas requintados. Impressionou as concorrentes, o mercado e o público, com infra- que a colocava entre as mais modernas do mundo. Dois anos depois já era a terceira maior do país em cobertura e audiência, e vice em faturamento. Ameaçou até a Globo. Mas a história da TV Manchete também seria conturbada financeiramente, alternando êxitos surpreendentes com fortes crises, que a mantiveram em evidência por todo o tempo, protagonizando boas ou más manchetes.

Ousada, dobrava suas apostas não apenas diante dos sucessos: respondia a fracassos com apostas mais altas e muitas vezes à custa de maiores e mais arriscados endividamentos. Se alternava de forma abrupta entre o cult e o trash, o requinte e o confisco, as estrelas e as tempestades, a superprodução e a tosquice, a elegância e o calote, o Brasil ideal e o mundo real. Do , prestigiado, à manchete de jornal, desacreditada. Fortes emoções que levaram aquela que chegou se anunciando como a “TV do ano 2000” a um fim precoce apenas nove meses antes da “virada do milênio”.

A História da TV Manchete

Fim da Tupi abre caminho para Manchete e SBT

Dois anos antes de começar suas transmissões, Adolpho Bloch venceu a concorrência de quatro dos sete canais remanescentes da Rede Tupi, além do número 9 de São Paulo (ex-TV Excelsior). As cinco emissoras, (Rio, São Paulo, BH, Fortaleza e Recife) formavam uma das duas redes de televisão lançadas simultaneamente pelo último governo militar.

Além da Bloch Editores, participaram do processo o Jornal do Brasil, a Editora Abril, a Rádio Capital, o Grupo Silvio Santos, e outros quatro menores, totalizando nove candidatos. O beneficiado pela outra rede foi Silvio Santos, com quatro canais. O empresário lançou o SBT no mesmo dia da assinatura dos contratos de concessão, transmitindo a cobertura do evento ao vivo.

O encontro ocorreu em 14 de agosto de 1981, no auditório do Ministério das Comunicações, em Brasília, e foi sucedido por um almoço oferecido pela Editora na Casa da Manchete na capital federal. Contou com a presença do Presidente da República, políticos, empresários, representantes das duas novas redes de televisão, e jornalistas. Já a Manchete, com prazo maior para estrear, ainda levaria quase dois anos para operar.

TV do futuro

Adolpho Bloch era aficionado por qualidade, e por isso constantemente renovava os equipamentos da editora. Partindo deste mesmo princípio, precisou de quase dois anos até que a TV Manchete chegasse ao nível esperado. Quase perdeu o prazo previsto no contrato assinado com o Governo Federal para estrear.

Bloch não poupou investimentos. Importou equipamentos de última geração, que sequer tinham sido lançados comercialmente no mundo, tendo que enviar funcionários para serem treinados nos EUA. E instalou as antenas mais altas e potentes de cada praça, que irradiavam os sinais a mais de 200 quilômetros de raio. Os modernos transmissores davam à Manchete a melhor imagem, que chegavam a até 300km de distância. Era a única preparada para som estéreo, tecnologia que na época ainda nem tinha sido lançada comercialmente no Brasil.

Logo da Manchete ba versão metálica, com os cinco continentes representados como cada esfera da marca

Um novo sinal no ar…

No dia 5 de junho, a partir do Rio de Janeiro, a Rede Manchete de Televisão passa a integrar o Brasil através de uma cadeia nacional de emissoras. O compromisso com uma programação de qualidade marca uma nova etapa na TV

A proposta era ser uma emissora moderna, jovem, com jornalismo forte (inspirado na BCC de Londres e na recém-inaugurada CNN americana), e programação voltada às classes A e B. Desta forma, se posicionava num segmento de mercado pouco atendido pelas demais emissoras. Mas financeiramente ousado…

Adolpho Bloch foi o centro de gravidade durante a história da tv manchete.
Adolpho Bloch em foto para vídeo sobre os 40 anos da revista Manchete

Aliança carioca

A viabilização da Manchete também teve a ajuda da TV Globo. Adolpho Bloch e Roberto Marinho eram amigos desde a década de 40, quando Bloch trabalhou para a Rio Gráfica, futura Editora Globo. Os empresários praticamente não competiam porque o mercado de revistas, terreno de Bloch, estava longe de ser a principal aposta da Globo. Boni, então superintendente de operações da líder, foi designado para ser uma espécie de consultor, atuando principalmente como uma espécie de coaching de Pedro Jack Kapeller, sobrinho de Bloch, que já era o diretor de operações da editora, e viria a acumular esta função na TV.

Segundo o próprio Boni, “a Globo fez o projeto técnico da Manchete“. Em troca, Bloch se comprometeu a buscar um público diferente ao da líder. Por isso não planejava entrar na briga pelo telespectador das , o principal produto da Globo. Bloch afirmou que não queria ser líder de audiência, mas sim “líder em qualidade”. Em troca, a Globo não faria investimentos pesados nas suas revistas. Este acordo, no entanto, já seria rompido em 1984, menos de um ano após a Manchete estrear.

A estreia da TV Manchete

No dia 5 de junho de 1983, com cinco emissoras próprias e uma afiliada (a TV Pampa de Porto Alegre), a tão esperada rede de TV de um dos maiores conglomerados de comunicação do Brasil, entrou no ar. A expectativa era grande por três motivos:

  1. o governo queria que a estreia tivesse ocorrido em julho de 1982, ou seja, a emissora já acumulava nove meses de atraso;
  2. a datas foi sofrendo adiamentos consecutivos, e tanta espera só fez crescer o buzz sobre o que estaria por vir;
  3. a promessa não era nada modesta: ser a mais moderna e de melhor qualidade rede de televisão da América Latina.

Às 19 horas daquele domingo, após breve pronunciamento de Adolpho Bloch, apareceu em cena uma vinheta futurista, com o logotipo da emissora sobrevoando as capitais onde a rede possuía emissoras próprias, terminando sua viagem rodeando o Pão de Açúcar e pousando como uma nave espacial no suntuoso prédio-sede da emissora, na Praia do Flamengo.

Estreia da Manchete

Estreia da TV Manchete com: 1) contagem regressiva, 2) pronunciamento de Adolpho Bloch saudando as emissoras concorrentes, em especial a TV Globo, 3) mensagens do então Presidente da República e dos patrocinadores, 4) vinheta de abertura com o M voador que impressionou pela alta tecnologia, e 5) início so show O Mundo Mágico, o primeiro programa da TV a bater o Fantástico.

O M voador foi algo impactante para os padrões tecnológicos da época. Repercutiu positivamente no mercado publicitário, impressionou o público e deixou as concorrentes preocupadas. Fez tanto sucesso que se tornou a vinheta de abertura e encerramento da programação diária, permanecendo até o último dia de existência da emissora, quase 16 anos depois.  

Líder de audiência

A Manchete estreou batendo o Fantástico. O show “O Mundo Mágico” e a superprodução inédita Contatos Imediatos de Primeiro Grau, de Steven Spielberg, exibidos logo após a vinheta, conquistaram a liderança em audiência, retirando a revista eletrônica global do posto pela primeira vez.

Vinhetas da Manchete

45 vinhetas: da tradicional de abertura de programação, passando pelas vinhetas interprogramas, as especiais de aniversário, de fim de ano, da retomada da emissora pela família Bloch, e de lançamentos de novas programações.

Programação qualificada

Inicialmente a grade de programação era composta por jornalismo, musicais, filmes e séries de peso, e uma sessão diária de desenhos animados apresentado por uma modelo que brincava com crianças no palco. O Clube da Criança acabou inaugurando um formato que reinaria em todas as emissoras de TV nos anos seguintes, e transformou Xuxa no ícone de uma geração.

Primeira abertura do Clube da Criança com Xuxa

Mas o carro-chefe da programação era o Jornal da Manchete. Nos primeiros meses da história da TV Manchete, o telejornal chegava a duas horas de duração, enquanto as concorrentes davam, no máximo, trinta minutos para seus principais noticiários.

Com esse investimento em jornalismo, a emissora, ao longo de toda sua existência, inovou, e trouxe técnicas e linguagens que são até hoje usadas pelas concorrentes. A presença de comentaristas, entrevistas, formas de narrativa, interação entre apresentadores, muitas mulheres na bancada e a mudança temporária para a cidade sede das Olimpíadas foram alguns exemplos.

Tinha também uma roupagem moderna, com um cenário que remetia a uma nave espacial e deixava a redação à mostra. A canção Videogame, composta por Roupa Nova, ficou marcada na memória dos telespectadores, Foi lá que Leila Cordeiro e Eliakim Araújo se consolidaram como o Casal 20 do jornalismo.

Jornal da Manchete

Aberturas, escaladas e encerramentos, com todos os apresentadores titulares A lista termina com a marcante canção Videogame, composta por Roupa Nova remixada em versão especial no show de comemoração dos 30 anos do grupo em 2010 e posteriormente em sua versão original.

Liderança no carnaval

Em 1984 ocorreu o primeiro estranhamento na relação entre Globo e Manchete. A emissora dos Blochs ganhou de Leonel Brizola, então governador do Estado do Rio, a exclusividade na cobertura do carnaval carioca, justamente no ano em que foi inaugurado o Sambódromo. A Globo procurou a Manchete para adquirir parte dos direitos, mas Adolpho Bloch fingiu que não ouviu.

Como resultado, a novata foi líder absoluta durante a transmissão do evento. Chegou a ter 56 pontos contra 26 de um show de Roberto Carlos na Globo. A resposta viria dez anos depois, quando, endividado, Adolpho Bloch procurou Marinho para pedir ajuda. Depois de deixar Bloch esperando por horas, Marinho abriu a porta da sala, ouviu o empresário, e apenas respondeu: “estou aguardando o retorno daquela minha ligação há dez anos”. Adolpho sentiu o golpe e saiu calado.

As negociações com o governo Brizola estavam complicadas, por isso falamos para a Manchete assumir as negociações, fechar as transmissões das Escolas do Rio, e depois nos repassar nossa parte dos direitos. Adolpho Bloch conseguiu o acordo, e depois não atendeu mais nossas ligações A partir daí viramos inimigos.

Boni, sobre as negociações para transmissões do carnaval de 84, em entrevista ao documentário “Os campeões de Audiência”. TV Cultura, 2020.

Dramaturgia e diversificação da audiência

Além do carnaval, a história da TV Manchete também foi marcada pelas novelas que produziu. Ainda em 1984, produziu exibiu a minissérie “Marquesa de Santos”, protagonizada por Maitê Proença. O resultado foi animador para a primeira aposta na área da emissora. A partir daí outras minisséries foram produzidas, sempre entrando pontualmente na grade, ou seja, sem um horário fixo com produções em sequência.

Percebendo que os públicos A e B tinham coisas melhores a fazer do que assistir TV, a Manchete viu que precisaria popularizar a grade para atingir a classe C. Por isso, em 1985, decidiu deixar de lado as minisséries e entrar no mundo das novelas, que poderiam fidelizar o novo público. Lançou também, em julho, junto com a novela, uma série humorística diária. As novas produções inauguraram o primeiro centro de produção de televisão da América Latina, o Complexo de Televisão de Água Grande.

Mas em 1985 seria a programação de qualidade a dar à emissora dois prêmios internacionais: a série de documentários Xingu, e a entrevista de Fidel Castro à Roberto D’Ávila. O jornalista foi à Espanha no ano seguinte receber o prêmio das mãos do Rei daquele país.

A emissora também concebeu programas de auditório, humorísticos, e um novo feminino apresentado por Clodovil, que estreariam em 1986.

Dona Beija, a primeira novela de sucesso

Em 1986, a Manchete lançou Dona Beija, com Maitê Proença, novela que fez grande sucesso, chegando ao primeiro lugar de audiência algumas vezes. Neste ano, Xuxa foi contratada pela Globo, e a Manchete lançou dois programas : um com a ex-global Simony, e outro em formato de teleteatro com Lucinha Lins.

Jaspion e Angélica: vice-liderança

Em 1987, José Wilker assume a direção de dramaturgia, e lança mais um horário de novelas. Wilker trouxe vários artistas da Globo, e conseguiu alguma repercussão com “Corpo Santo”, “Carmem”, “Helena” e “Olho por Olho”. Ainda neste ano, Angélica começa a aprsentar o programa matutino “A nave da fantasia”, substituindo Simony.

Em 1988, Angélica é promovida apresentadora do Clube da Criança, que volta ao ar no horário tradicional, das 16h às 18h. A Manchete lança o seriado japonês Jaspion, que teve enorme sucesso e incentivou o lançamento de vários outros produtos do gênero como Changeman, Fhasman e Black RX. Esse estilo de programa marcaria a infância de uma geração.

A era de ouro: segunda maior do país

Em 1989, Jayme Monjardim assume o núcleo de dramaturgia e produz outro grande sucesso: Kananga do Japão. Leila Cordeiro e Eliakim Araujo deixam a rede Globo e chegam para ancorar o Jornal da Manchete. Neste ano começou a fase de ouro da história da TV Manchete, que se estenderia até 1992.

No jornalismo, o “Documento Especial” inovou em formato e linguagem. Angélica ganhou outro programa, aos sábados, o “Milk Shake”, musical, direcionado ao público Jovem. Um enorme sucesso.

Jornalismo ágil

Em 21 de agosto de 1989, Leila Cordeiro e Eliakim Araújo (até então apresentadores do Jornal da Globo) foram contratados para ancorar o Jornal da Manchete, substituindo Ronaldo Rosas e Carlos Bianchinni. Depois de seis anos, era a hora de reformular o telejornal, mantendo a proposta de mostrar uma cobertura mais aprofundada dos fatos, mas buscando uma maior agilidade e uma linguagem mais acessível ao público. Com a liberdade prometida, e a missão de implantar um novo jeito de informar ao telespectador, rumaram à Rua do Rússel como estrelas de primeira grandeza.

Leila e Eliakim no Jornal da Manchete - 1991

Essa época de ouro da Manchete, caracterizada com novelas de sucesso e infantis vice-líderes, também se caracterizou por um show de jornalismo. A Rede Manchete, que até então se destacava nesse departamento, abriu ainda maior distância em relação à concorrência. O jornalismo era ousado, inovador e independente. Os repórteres chegavam antes e davam seguidos furos de reportagens.

Nessa época, a Manchete já suspendia a programação para exibir initerruptamente qualquer acontecimento importante no país. O Jornal da Manchete era ágil, tinha correspondentes espalhados pelo mundo, e trazia a data e imagens do dia integradas à abertura. Leila e Eliakim se consagraram como o Casal 20 do telejornalismo.

Em 1989, Boni, da Globo, enviou uma nota à imprensa parabenizando a Manchete por uma entrevista exclusiva com Michael Gorbachev, levada ao ar no Jornal da Manchete. Nas palavras, Boni destacava, além do belo trabalho, que aquele “tipo de concorrência era um modelo que deveria ser multiplicado, por ser saudável e um grande aprendizado para todos”.

Novelas e séries que rodaram o Brasil

Em 1990, a emissora contrata Benedito Ruy Barbosa para escrever a novela que a Rede Globo não quis fazer: Pantanal. Jayme Monjardim criou uma narrativa totalmente diferente da usual, e o resultado foi um sucesso retumbante logo nas primeiras semanas da estreia.

liderou a audiência no Rio em todos os capítulos a partir da terceira semana, e chegou a abrir uma frente de 20 pontos (42 a 22) contra a Globo. Em São Paulo, Pantanal foi líder em quase 60% dos capítulos, e perdeu por muitos poucos pontos nos demais.

Este sucesso incentivaria a emissora a continuar com novelas que mostrassem as belezas naturais do Brasil, e no ano seguinte, estreou “A História de Ana Raio e Zé Trovão”. Com o slogan “o Brasil que o Brasil não conhece”, a trama mostrava a rotina de uma caravana de rodeios, e com isso a emissora percorreu mais de 14 mil quilômetros, mostrando cenários até então inéditos na TV. Neste período a Manchete adotou o slogan “O Brasil passa na Manchete”.

Minisséries como “O Canto das Sereias”, “O Guarani”, “Filhos do Sol” e “Canto das Sereias” sucediam as novelas e garantiam o segundo lugar de audiência. Na colocação geral, a Manchete era a segunda emissora mais vista do Brasil, desbancando o SBT.

Troca troca

Com base no Rio, a Manchete era um bom contraponto à TV Globo. Do ponto de vista do mercado de trabalho, funcionários passeavam entre as duas emissoras. Sem o engessamento de grade e sem a obrigação de ter uma postura politicamente correta como a TV Globo, na Manchete as pessoas poderiam ousar, inovar, e por isso foi um celeiro tanto de talentos como de experimentação, que na prática, beneficiava a própria Globo. Se algo desse certo, a líder já trazia da Manchete. Por outro lado, se algo não desse certo na Globo, a Manchete trazia o profissional, e lá ele tentava coisas novas.

Bloch vende o controle da emissora

Ana Raio e Zé Trovão garantiu o segundo lugar, mas gastou muito dinheiro. No ano anterior, a Manchete, mesmo endividada, havia inaugurado uma nova sede em São Paulo com o objetivo de ter uma base forte na cidade, e minimizar a imagem carioca. O projeto grandioso (como de costume), seria um dos ofensores para aprofundar a crise financeira.

Dobrando a aposta

Sem os lucros imaginados com “Ana Raio” e sem dinheiro em caixa, qualquer outra empresa teria feito uma política de austeridade para recuperar seu poder de investimento. Mas fosse assim, não seria Manchete, e também não daria “manchete”. Os Blochs decidiram dobrar a aposta, na tentativa de repetir um fenômeno à la Pantanal, e lançaram a novela , com dificuldades de logística muito piores que a caminhada de Juma, numa trama confusa e gastos que não condiziam com a realidade financeira.

Jayme Monjardim, diretor artístico responsável também pela dramaturgia, se desentendeu com a direção e deixou a Manchete antes da estreia da novela. Equipamentos caríssimos do cinema norte-americano demoraram a chegar, a novela atrasou, e com uma história que se passava no passado e futuro ao mesmo tempo, espantou o público, levando à fuga de anunciantes e médias decepcionantes de dois pontos (ante os vinte e cinco sonhados).

Troca de autores, reviravolta na trama, nova abertura, e até uma mudança no título (Amazônia Parte II), foram as armas de Tizuka Yamazaki para tentar salvar o projeto. De nada adiantaram. Amazônia foi considerada o maior passo em falso da história da TV Manchete.

Sempre pode piorar

Sem saída, Bloch decide vender a emissora para o Grupo IBF, presidido por um proeminente empresário ligado ao então Presidente da República, Fernando Collor de Mello. Collor que, por sua vez, nutria enorme antipatia pela Manchete (Bloch apoiou Brizolla e desdenhou do então inexpressivo candidato do PRN).

Em outubro, o novo grupo controlador suspendeu todos os pagamentos. Alegando que a situação financeira da emissora era pior do que fora divulgado durante as negociações de compra, não honrou a segunda parcela do que devia à família Bloch, suspendeu pagamentos de funcionários e parou de pagar as parcelas da dívida, renegociadas anteriormente com o Banco do Brasil.

A crise do grupo IBF coincidiu com a queda do Presidente Collor, que renunciaria em dezembro, após meses de denúncias que também envolveram o empresário, controlador da holding de formulários e raspadinhas e proprietário de 40% das ações da Manchete.

Desde que o novo grupo assumiu o controle, todas as grandes estrelas foram deixando a emissora. A audiência média caiu tanto, que derrubou a Manchete para sétimo lugar na audiência da Grande São Paulo. Os programas mais assistidos passaram a ser o polêmico Documento Verdade e a sessão de filmes Cinema Nacional e Cinemania 2, na época com filmes “soft porn tupiniquim”.

Greves começaram a pipocar nas cinco emissoras da rede. Até Clodovil Hernandez, a única grande estrela anunciada pela nova gestão, que levava ao ar praticamente a atração mais importante da nova grade, trocou de canal quando seu programa começou a ser afetado pela greve.

A novela Ana Raio e Zé Trovão voltou ao ar usando fitas VHS do acervo pessoal de Jayme Monjardim porque os grevistas impediam o acesso ao arquivo da emissora no Rio. A crise chegou ao ponto do diretor de Alberto Leo ter que apresentar o Jornal da Manchete.

Institucional sobre a volta para os Blochs - 1993

Durante o período em que esteve nas mãos do Grupo IBF, vários artistas de peso saíram da Manchete: Leila Cordeiro, Eliakim Araujo, Otavio Mesquita e Angélica, foram para o SBT. Além disso, muitas emissoras afiliadas à rede passariam a transmitir a programção da Rede Record, que nesta época, estava em fase de expansão.

Blochs retomam a Manchete

Em marco de 93, Bloch consegue liminar cancelando a venda e retoma o controle da emissora. Imediatamente transfere de volta a geração e produção dos principais programas para o Rio. E passa o ano tentando arrumar a casa. As prioridades foram pagar os salários atrasados e reconquistar prestigio e credibilidade. Fernando Barbosa Lima assumiu a direção geral.

A Manchete estava sem seus principais nomes, sem novela em exibição, e passou os anos de 93 e 94 com baixa audiência, marcando uma fase de austeridade. Focou em programas que gerassem receita a custos controlados. Por isso foi o período com a maior presença de produções independentes da história da TV Manchete.

Fazendo “caixa”

Em 94, a estratégia era capitalizar, privilegiando programas com potencial de faturamento e custos controlados. Investiu em produções independentes e eventos esportivos, como a Copa do Brasil e a Fórmula Indy. Apostou em novelas que fossem baratas, chegando a levar ao ar uma trama totalmente produzida pela TV Plus. Não foram bem em audiência, mas não deram prejuízo.

Porém, uma grata surpresa: voltou a ocupar vice-liderança diária durante , desenho japonês que virou febre entre os adolescentes. A série, exibida pela manhã e à tarde, conseguia médias de até 14 pontos. Naturalmente foi um estímulo importante para novos investimentos em títulos do gênero anime nos anos seguintes.

Reconquista de público

Em 1995, a emissora começa a buscar audiência. Lança a novela Tocaia Grande, baseada no romance de Jorge Amado, apostando que seria um grande sucesso. A trama decepciona no começo, levando a cúpula a trocar a direção. Walter Avancini assumiu um mês depois da estreia, e chamou Walter George Durst para assumir a adaptação da história, repetindo a dupla que dirigiu e escreveu Gabriela, na Globo.

A história foi recheada com novos personagens, desapego à retratação histórica, personagens cômicos e claro, erotismo. Triplicou a audiência logo no primeiro mês. Tocaia Grande chegou ao fim onze meses depois de estrear, com médias de 9 e picos de 12 pontos.

Abertura de Tocaia Grande

Xica da Silva devolve vice-liderança em dramaturgia

O grande lançamento deste ano, no entanto, seria a novela Xica da Silva. Cercada de estratégias de marketing, Avancini lança a novela em setembro daquele ano, apostando alto na repercussão da trama. O resultado foi um enorme sucesso. Com médias de 14/16 pontos, e picos de 22, a novela ficou quase um ano no ar e garantiu o segundo lugar absoluto no horário, tendo chegado à liderança em várias oportunidades.

Sobre a história da escrava que se tornava amante do homem mais poderoso do país no século XVIII, a novela entrou no ar trazendo Adriane Galisteu no elenco, com cantores em papéis importantes (Eduardo Dusek, Leci Brandão), atores veteranos, e deu visibilidade a uma safra de novos talentos, como Murilo Rosa, Carla Regina, Guilherme Piva, Dalton Vigh, Giovana Antonelli, e os protagonistas Victor Wagner, Taís Araujo. Veteranos como Zezé Mota, Fernando Eiras, Miriam Pires, Carlos Alberto, Sergio Viotti, e a antagonista da trama Drica Moraes, fechavam o elenco. Ciciollina, estrela do cinema erótico italiano, foi chamada para uma participação especial, dando vida à princesa Ludovika.

Um mistério rondava os bastidores da trama: o autor da trama, elogiado pela trama que escrevia, era totalmente desconhecido. Adamo Angel, no decorrer da trama, foi desmascarado. Tratava-se de Walcyr Carrasco, então contratado do SBT, que assinava na Manchete sua primeira novela solo, com enorme sucesso. Carrasco já havia feito parte da história da TV Manchete como roteirista de minisséries, mas nunca como autor principal.

Em agosto de 1997, Xica da Silva dava lugar a Mandacaru, baseada na história do Cangaço. Com um início não muito animador, a trama dá uma guinada com a ascenção de um personagem secundário à condição de protagonista. Assim, Benvindo Siqueira toma o lugar de Victor Wagner e Carla Regina, e seu personagem Zebedeu, se torna o mais importante da novela, transformando a história em comédia. A novela se recupera, não tendo o mesmo sucesso de Xica, mas garantindo média de 8 pontos. A novel ficou quase um ano no ar.

O começo do fim: Copa e Brida agravam crise de 98

Nessa época, a dívida a Manchete levaria a emissora a investir cada vez mais em atrações de baixo custo e que trouxesse retorno financeiro. Em 97, a emissora lança atrações populares, como uma programação aos domingos com atrações de auditório apoiadas nos serviços 0900, uma febre nessa época. Nasce uma parceria com o grupo TV ômega, especializado nestes serviços, arrendando a grade de domingo para a empresa de Amilcare Dallewwo. O “Domingo Milionário” consistia em atrações durante durante toda a tarde de domingo, sendo trocado posteriormente pelo “Domingo Total”. Otavio Mesquita, Virginia Novick, Marcelo Augusto e Thunderbird comandaram atrações na faixa, que ocupavam o terceiro lugar e incomodavam o SBT na vice-liderança.

Em 1998, o Jornal da Manchete volta a ter três edições quase idênticas diárias. O objetivo seria se torna uma emissora referência em notícias, e se tudo desse certo, seriam lançadas novas edições pela manhã e fashes durante toda programação. Foi o período que as três edições do jornal mais se aproximaram na forma, durante toda a história da TV Manchete.

Imagem 38 de História da Rede Manchete - 38
Jornal da Manchete 1998

Em agosto, sai do ar e dá lugar a Brida. O investimento em um grande sucesso literário de Paulo Coelho, no entanto, decepciona. A novela atinge apenas 2 pontos em audiência, e mais uma vez Walter Avancini faz mudanças estruturais na trama. Com um acordo de risco com os anunciantes, a novela, sem atingir os 5 pontos mínimos do acordo, aumenta mais ainda o rombo financeiro.

Imagem 40 de História da Rede Manchete - 40
Propaganda de lançaemnto da novela.

No entanto, com a flutuação cambial, as dívidas disparam. Uma greve de funcionários começa nos meados daquele ano. As produções param, nomes de peso como Raul Gil e Marcia Peltier e Otavio Mesquita, saem rumo a outras emissoras. A greve atinge a produção de . Sem capítulos para levar ao ar, a emissora interrompe a exibição da novela e apenas três meses.

Em maio de 1999, a Manchete foi definitivamente dividida e vendida: parte para a Hesed Participações, e o restante para a TV Ômega.

Por Diogo Montano

Diogo Montano é Bacharéu em Ciência da Computação, pós graduado em Gestão de Negócios, e trabalha há quase vinte anos unindo duas coisas que sempre gostou: comunicação e tecnologia. Cresceu assistindo à Globo e Manchete, canais de tv que tinham as melhores imagens da região. Em 1999, ainda antes de entrar na faculdade, publicou a primeira versão deste site, logo após a venda da Manchete.

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