A Dramaturgia da Manchete

Em seu período de implantação, como também no seu primeiro ano de funcionamento, a Rede Manchete, nas pessoas de seus diretores, bem como de seu próprio fundador, não tinha nenhum plano de investimentos em área de dramaturgia. A decisão de investir neste segmento veio em 1984, quando colocou no ar a minissérie “Marquesa de Santos“, uma história de época baseada em fatos reais estrelada por Maitê Proença e Gracindo Jr.

Abrindo o horário das 21:15 para a dramaturgia, a Rede Manchete passou a apostar nos mais diversos gêneros de minisséries, indo desde uma simples história do cotidiano social às tramas policiais, conforme visto respectivamente em “Santa Marta Fabril” e em “Tudo em Cima“. Em 1985, apostou em produções de capítulos mais longos, nascendo a partir daí a sua primeira novela: “Antônio Maria“.

Mas foi em 1986 que o núcleo de dramaturgia da Rede Manchete conquistou um grande espaço na mídia nacional, ao anunciar o lançamento de uma superprodução de época. Foi aí que surgiu “Dona Beija“, novela que trouxe a volta do casal Maitê Proença e Gracindo Jr. para a tela da emissora. Alcançando elevados índices de audiência em todo o Brasil, “Dona Beija” consagrou-se como o primeiro grande sucesso do departamento de telenovelas da Rede Manchete, além de marcar o início de uma fase muito prestigiosa na emissora. Após o sucesso de “Dona Beija“, abriram-se novos espaços na emissora para a exibição de novelas, como a seção “Romance da Tarde” e o horário das 19:45. O primeiro dedicava-se às reprises das primeiras minisséries e o segundo, reservava-se a novos lançamentos da casa juntamente com aquele já existente das 21:30.

Em 1989, entrava no ar mais uma superprodução da Rede Manchete, que também ganhou bastante destaque na mídia nacional. Antes de sua estréia, “Kananga do Japão” já chamava bastante atenção do público com todo o charme de sua ambientação, um fiel retrato do Rio de Janeiro dos anos 30.

Em março de 1990, estreava o maior fenômeno de toda a trajetória da Rede Manchete. Priorizando as cenas externas, beneficiando diretamente o turismo sul-matogrossense e exaltando bastante a ecologia com elevadas doses de nudez e sensualidade, “Pantanal” revolucionou a linguagem da telenovela brasileira apostando em um formato ainda desconhecido pela dramaturgia nacional. Trouxe grandes revelações e alcançou uma liderança histórica em audiência de 40 pontos, preocupando inegavalmente a concorrência. Foi o maior registro obtido pela Rede Manchete nos seus 16 anos de história. Aproveitando o estrondoso sucesso, a emissora lançou em julho do mesmo ano um horário dedicado a novas minisséries. Com isso, seu núcleo de dramaturgia valorizava-se cada vez mais, não apenas com os investimentos realizados em novas produções e sim no benefício cedido pela elevada audiência de “Pantanal“. Exibindo as tramas de histórias curtas na seqüência da novela, no horário das 22:30, a emissora estrategicamente evitaria a migração de seus fiéis telespectadores para os outros canais, concentrando ainda uma boa audiência em suas minisséries. Entre 1990 e 1991, as mais variadas temáticas, algumas baseadas em obras consagradas, como “O Guarani” e “O Fantasma da Ópera” e outras baseada em lendas, como “O Canto das Sereias“, “Filhos do Sol” e “Ilha das Bruxas” conquistaram uma boa aceitação do público e marcaram um bom tempo da dramaturgia da Rede Manchete.

Ainda em 1990, entrava no ar a novela “A História de Ana Raio e Zé Trovão”, uma história itinerante que percorreu 14 mil quilômetros ao longo dos dez meses de sua permanência no ar. Não alcançou uma audiência histórica e nem decepcionou os índices da emissora, atingindo uma média de 16 pontos e um custo de 8 milhões de dólares. No final de 1991, “Amazônia” estreava com uma temática e uma história semelhante à de “Pantanal”. Embora fossem tamanhos os esforços para colocá-la no ar e a divulgar a sua estréia, “Amazônia” não passou de um grande fracasso para a emissora, que chegou a lançar uma segunda fase para recuperar os índices de audiência e compensar prejuízos. Mas não teve remédio: firmou-se como um dos maiores frassos da dramaturgia da Rede Manchete e contribuiu bastante para o agravamento da crise da emissora.
Atacada pela crise que atravessou no primeiro semestre de 1992, nitidamente visível nos tempos de sua venda para o Grupo IBF, a Rede Manchete temporariamente abriu mão de sua linha de dramaturgia, que geralmente possuía um custo bastante elevado. Para não deixar sua programação sem o charme proporcionado pelas novelas , a emissora chegou a importar produções latinas e a reprisar os seus maiores sucessos. Em 1993, já de volta ao comando da família Bloch, a Manchete emprestou a ousadia de seu jornalismo para reconstituir uma das histórias mais polêmicas da política nacional na forma de minissérie. Foi aí que surgiu “O Marajá”, um retrato fiel da vida de Fernando Collor de Mello enquanto era presidente da República. A história infelizmente teve sua exibição vetada no dia de sua estréia, quando o próprio ex-presidente Collor entrou com uma ação judicial impedindo a sua difusão. O ato frustrou a direção da emissora, além de trazer grandes prejuízos motivados pelo cancelamento das cotas de patrocínio da minissérie. Em situação delicada, a Manchete tentava se recuperar, lançando no mesmo ano e a toque de caixa a novela “Guerra sem Fim”, um retrato da marginalidade nos morros cariocas.

Em 1994, a Rede Manchete não possuía a mínima disposição para produzir suas próprias novelas. A melhor saída para o caso foi vista na assinatura de um contrato com a produtora TV Plus para produzir a novela “74.5 – Uma Onda no Ar”. Um ano depois, mais recuperada de suas crises, a emissora criou um segmento independente de sua programação, exclusivamente voltado à produção de novelas e trilhas sonoras denominado Bloch Som & Imagem. Com o apoio desta empresa, lançou a novela “Tocaia Grande“, baseada na obra homônima de Jorge Amado.

A última grande sensação da emissora nas telenovelas foi vista entre 1996 e 1997, período em que esteve no ar a novela “Xica da Silva“. Escrita por Adamo Angel, pseudônimo curiosamente adotado por Walcyr Carrasco, “Xica da Silva” revelou o talento de Taís Araújo no papel da personagem-título da história. Rendeu uma boa audiência de 15 pontos e contou com uma rápida participação da atriz e deputada italiana Cicciolina.

Em 1997, “Mandacaru” reconstituiu os tempos aventurescos do cangaço nordestino, contando com a participação dos cantores Alceu Valença e Daniela Mercury respectivamente nos papéis de Lampião e Maria Bonita. Uma verdadeira manifestação da cultura regional tomava conta da penúltima novela da Rede Manchete.

O núcleo de dramaturgia da Rede Manchete, sob a produção da Bloch Som & Imagem, encerrava as suas atividades com o apressado encerramento da novela “Brida“. Além de se transformar em um grande fracasso em audiência, a última novela da emissora teve o seu andamento prejudicado pela derradeira greve que se instalava. Em seu lugar, entrou no ar a reprise de “Pantanal“, perdurando até o fechamento definitivo da emissora, em agosto de 1999.

Esta foi a contribuição da Rede Manchete para o universo da dramaturgia brasileira. Seja preocupando a concorrência com suas surpreendentes produções, que por vezes também não conseguiam convencer o público, a emissora teve um capítulo especial na história da teledramaturgia brasileira. Confira a seguir uma listagem de todas as novelas e minisséries produzidas pela emissora. Você encontrará informações mais detalhadas sobre cada uma clicando nos respectivos nomes.


SUAS NOVELAS E MINISSÉRIES

21 Agosto, 1984

Marquesa de Santos

Minissérie de época, com Maitê Proença e Gracindo Jr.
De 21/ago/84 Até 05/out/84
Seg a sex, às 21h15

Santa Marta Fabril

21/11/84 a 29/12/84
Minissérie social

21 Novembro, 1984
Março, 1985

Tudo em Cima

Minissérie Policial

Antonio Maria

Novela em parceria com a RTP – Portugal

Dona Beija

07/04/86 a 11/07/86. às 21h30
Novela biográfica, regionalista e de época

Mania de Querer

22/09/86 a 28/03/87, às 21h30
Novela contemporânea

Corpo Santo

Novela Policial
30/03/87 a 02/10/87, às 21h30

Helena

04/05/87 a 07/11/87
Horário: 19:40
Categoria: Novela de época

Carmem

05/10/87 a 14/05/88, às 21h30
Novela contemporânea de adaptação literária

TUDO OU NADA
Período: 15/09/86 a 21/03/87
Horário: 19:45
Categoria: Novela social

MANIA DE QUERER
Período: 22/09/86 a 28/03/87
Horário: 21:30
Categoria: Novela social

CORPO SANTO
Período: 30/03/87 a 02/10/87
Horário: 21:30
Categoria: Novela policial

HELENA
Período: 04/05/87 a 07/11/87
Horário: 19:40
Categoria: Novela de época

CARMEM
Período: 05/10/87 a 14/05/88
Horário: 21:30
Categoria: Novela atual de adaptação

A RAINHA DA VIDA
Período: 15 capítulos a partir de 16/11/87
Horário: 22:00
Categoria: Minissérie social

OLHO POR OLHO
Período: 22/08/88 a 06/01/89
Horário: 21:30
Categoria: Novela policial

KANANGA DO JAPÃO
Período: 19/07/89 a 25/03/90
Horário: 21:30
Categoria: Novela de época social

PANTANAL
Período: 27/03/90 a 10/12/90
Horário: 21:30
Categoria: Novela regionalista ecológica

O CANTO DAS SEREIAS
Período: 16/07/90 a 26/07/90
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie lendária

MÃE DE SANTO
Período: 09/10/90 a 02/11/90
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie de costumes

ROSA DOS RUMOS
Período: 20/11/90 a 30/11/90
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie social

A HISTÓRIA DE ANA RAIO E ZÉ TROVÃO
Período: 12/12/90 a 13/10/91
Horário: 21:30
Categoria: Novela itinerária

FILHOS DO SOL
Período: 16/01/91 a 09/02/91
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie fictícia

ILHA DAS BRUXAS
Período: 04/03/91 a 28/03/91
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie lendária

O FAROL
Período: 15/04/91 a 02/05/91
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie social

NA REDE DE INTRIGAS
Período: Maio e Junho de 1991
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie social

FLORADAS NA SERRA
Período: Julho de 1991 (24 capítulos)
Horário: 22: 30
Categoria: Minissérie regionalista

O GUARANI
Período: 19/08/91 ao final de setembro de 1991
Horário: 22:30
Categoria: Minissérie regionalista de época

O FANTASMA DA ÓPERA
Período: 15/10/91 a 29/11/91
Horário: 21:30
Categoria: Minissérie fictícia

AMAZÔNIA
Período: 10/12/91 a o final de junho de 1992
Horário: 21:30
Categoria: Novela regionalista

SEU QUEQUÉ
Período: Junho e Julho de 1992
Horário: 21:30
Categoria: Minissérie social (produção TV Cultura)

VALÉRIA E MAXIMILIANO
Período: Segundo semestre de 1992
Horário: 19:30
Categoria: Novela social latina (mexicana)

O MARAJÁ
Período: Produzida e censurada em 1993
Horário: Seria transmitida às 21:30
Categoria: Minissérie biográfica

GUERRA SEM FIM
Período: 30/11/93 a 09/04/94
Horário: 21:30
Categoria: Novela policial

ALÉM DO HORIZONTE
Período: 1994
Horário: Desconhecido
Categoria: Novela social latina (Argentina)

74.5 – UMA ONDA NO AR
Período: 11/04/94 ao final de 1994
Horário: 21:30
Categoria: Novela urbana (produção TV Plus)

TOCAIA GRANDE
Período: 1995/1996
Horário: 21:30
Categoria: Novela regionalista de época

XICA DA SILVA
Período: 1996/1997
Horário: 21:30
Categoria: Novela regionalista de época

MANDACARU
Período: 1997/1998
Horário: 21:30
Categoria: Novela regionalista de época

BRIDA
Período: 1998
Horário: 21:30
Categoria: Novela esotérica de época