Leila Cordeiro: “emissora marcou época em nossa TV”

Jornalista publicou texto em 2003, quando a emissora completaria 20 anos. Leila foi âncora do Jornal da Manchete em sua melhor fase.

Por Leila Cordeiro, em 5 de junho de 2003

Rede Manchete, 20 anos

Quando entrou no ar, em 1983, a TV Manchete se auto proclamou a televisão do ano 2000. Neste mês de junho, ela estaria completando 20 anos se ainda estivesse transmitindo. Apesar de todos os desmandos administrativos dos proprietários e fundadores, a família Bloch, somos obrigados a reconhecer que a emissora marcou época na história da nossa televisão.

1989: O Casal 20 da TV, Leila e Eliakim

O pioneirismo do projeto e a proposta de levar ao público uma televisão de primeira classe mexeu com o mercado televisivo na época de seu lançamento e deixou a Globo de orelha em pé. Sem dúvida, a TV Manchete foi uma verdadeira escola de jornalismo para todos os profissionais que passaram por lá. Recém-saída da Globo, fiquei encantada com a filosofia da emissora de deixar o telespectador bem informado, com rapidez e credibilidade, sem preocupação com padrões de beleza e modismos. O importante eram o dinamismo e a rapidez em passar a informação.

Rapidez e dinamismo que eram seguidos à risca pelas equipes nas ruas. A reportagem da emissora era sempre a primeira a chegar e conseguia algumas vitórias sobre a concorrente. Em 1984, uma balsa de salvamento de uma plataforma de petróleo em Campos, Estado do Rio, despencou no mar quando os funcionários tentavam fugir do incêndio. Uma tragédia que matou quase 20 pessoas. Enquanto a Globo fazia uma reportagem convencional, a Manchete foi a única emissora que conseguiu autorização para sobrevoar a plataforma em chamas e o local da queda da balsa. Noutra ocasião, no incêndio do edifício Andorinha, no centro do Rio, em que algumas pessoas se jogaram do alto do edifício em chamas, a Manchete também mostrou sua eficiência. Posicionou sua antena no terraço de um prédio em frente e conseguiu transmitir ao vivo, sem limite de tempo, dando um banho na concorrência.

Como o jornalismo era a prioridade da emissora, era natural interromper a programação para mostrar o que estava acontecendo. E se fosse preciso ficar o dia todo cobrindo um evento não teria problema. Graças a isso, a Manchete adquiriu uma prática de transmissão ao vivo que não se via na concorrência.

No carnaval, a Manchete fez escola. Além da cobertura completa na Avenida, ela criou uma forma diferente de falar de samba e alegria, destacando aqueles que realmente eram os personagens da festa. Num botequim armado no início da pista, os repórteres entrevistavam personalidades do mundo do samba, e ouviam a emoção das pessoas que se preparavam para desfilar. A Manchete foi a primeira a mostrar a cara dos narradores e comentaristas, enquanto na Globo toda a transmissão era em off. Com o fim da emissora, a Globo não teve dúvidas, copiou as idéias e hoje coloca no ar uma réplica do botequim do samba e mostra a imagem dos narradores numa ogiva espacial sobre a avenida dos desfiles.

Carnaval de 91. Ano em que Dercy Gonçalves desfilou com os seios de fora, lembram? Como a escola dela era a primeira a desfilar, por volta das seis da tarde, dia claro ainda, acompanhei como repórter da Manchete a subida de Dercy no carro alegórico, com auxilio de um elevador-guindaste. Colei com ela e enquanto a operação acontecia entrevistei-a, ouvindo dela as mais incríveis irreverências recheadas “daqueles” palavrões. Ficamos mais de 10 minutos no ar, ao vivo, enquanto os colegas da Globo, desesperados, não podiam fazer o mesmo porque a novela não podia ser interrompida. Era assim a guerra do Carnaval. A Globo com a conveniente estratégia de “programação normal e o melhor do carnaval”, e a emissora do Russel respondia com “Carnaval na Manchete, 96 horas de transmissão ao vivo”. Além de mostrar cada segundo da festa, a emissora repetia todo desfile das escolas no dia seguinte para alegria daqueles que não aguentavam passar a noite toda acordados.

Infelizmente o sonho acabou. A qualidade dos primeiros anos foi se deteriorando. Envolvida em enormes dificuldades financeiras, a emissora começou atrasar o pagamento dos funcionários, suas dívidas acumuladas levaram a empresa quase à bancarrota e a solução foi vendê-la ao Grupo IBF, que acabou por arruiná-la ainda mais. Anos depois, os Bloch conseguiram na justiça retomar seu controle, mas aí já era tarde demais.

A Manchete hoje é uma saudade, mas restou a esperança de que é possível praticar-se em nossa TV um jornalismo sério e de qualidade. Em que a notícia seja a prioridade e o telespectador realmente respeitado.