Balanço de D. Beija, por Maitê Proença:

Logo após o fim de Dona Beija (julho de 1986), a atriz fez um balanço da obra, num depoimento dado ao jornalista Claudio Figueiredo, da revista Manchete.

Todo ator sempre gosta mais do último trabalho. Convivi com Dona Beija durante quase seis meses, e dela ficou uma impressão muito forte, até em termos pessoais. Acredito que isso aconteceu porque tive a sorte de trabalhar com uma equipe super entrosada. Juntos, nós conseguimos criar uma atmosfera inusitada em matéria de trabalho em TV, que, em geral, se dá sempre num ambiente bastante tenso. Por isso o prazer foi tão grande, por causa da colaboração de todos – desde a costureira que fazia os reparos até o maquilador e os atores. Todas as circunstâncias em que este projeto estava inserido contribuíram para esta união, esta afinidade maior entre as pessoas. Estávamos todos ali conscientes de estar participando de um projeto pioneiro da Manchete. Unia-nos o fato de não estarmos apenas abrindo um novo mercado, mas uma opção de qualidade. Essa união deu origem a um clima de trabalho que me fazia ir para o estúdio feliz, apesar dos horários puxados.

Claro que o início é sempre mais difícil quando se está implantando alguma coisa nova. Esse ritmo teve de ser conquistado. O Herval Rossano imprime um ritmo muito forte às gravações. Logo no primeiro dia peguei 20 cenas da Beija. A novela deve muito do seu sucesso à direção de Rossano, dono de uma mão incrível: tudo o que ele toca se transforma em sucesso. E isso não acontece ou por sorte; é puro talento. As dificuldades do início da novela logo foram superadas, à medida que a equipe passou a perceber que poderia se orgulhar do material que estava produzindo. A partir daí, o barco deixou as águas turvas da fase inicial para correr com tranquilidade.

Acredito que, até um determinado momento da minha vida, estava vivendo um certo amadurecimento em que eu me concedia um tempo de aprendizado, sem ansiedades profundas com relação a um resultado especialmente bom. Mas, quando apareceu Beija, falei: ‘Não, agora eu quero pegar esses ingredientes que assimilei até o momento e usá-los todos. Eu sempre comparo isso com a idéia de fazer um bolo. Claro que não tenho todos os temperos e alguns ingredientes ainda estão numa prateleira muito alta, mas já dá para fazer um bolo gostoso.

Sinto-me bem nesse papel e no momento atual da minha carreira. E me sentiria infeliz se estivesse constatando que tudo que fiz não fosse dar o resultado que estou obtendo.’ D. Beija foi uma responsabilidade maior. Beija é muito para qualquer atriz. E uma personagem muito mais complexa do que qualquer outra que já interpretei. Ela fica infeliz. Ela se torna uma criança. Ela é mulher. Ela tripudia em cima das pessoas, mas se sente diminuída por elas mesmas. Tem todos os defeitos e conflitos superlativos de uma grande mulher. Num país tão sem memória como o Brasil, é fundamental mostrar personagens históricos. A Beija não chega a ser histórica, mas existiu – e a novela procurou mostrar os costumes da época, do século passado.

Em Araxá, na festa de encerramento da novela, fomos recebidos por milhares de pessoas que nos esperavam postadas ao longo da estrada entre o aeroporto e a cidade. Foi algo impressionante. O que levou essas pessoas a preparar uma recepção como aquela foi uma grande gratidão por ressuscitarmos de forma tão digna uma personagem que está viva na memória de todos eles, na memória da cidade. Uma personagem a que me entreguei por completo. Durante todo esse tempo, eu fui Dona Beija.

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Texto publicado na Revista Manchete pelo jornalista Claudio Figueiredo

Por Diogo Montano

Diogo Montano é Bacharéu em Ciência da Computação, pós graduado em Gestão de Negócios, e trabalha há quase vinte anos unindo duas coisas que sempre gostou: comunicação e tecnologia. Cresceu assistindo à Globo e Manchete, canais de tv que tinham as melhores imagens da região. Em 1999, ainda antes de entrar na faculdade, publicou a primeira versão deste site, logo após a venda da Manchete.

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