Na “era Peltier”, jornal ficou mais leve e inovou a cada ano

Aposta constante em novidades foi a marca dos últimos cinco anos do noticiário, que manteve prestígio com analistas consagrados e cobertura aprofundada dos fatos.

Com a saída de Leila Cordeiro e Eliakim Aráujo em dezembro de 1992, o jornal ficaria sem substituto pelos meses seguintes, tendo sido apresentado por diversos jornalistas. Foram meses especialmente conturbados, com greves e fuga de estrelas, o que acabaria em. uma liminar judicial em maio de 1993, determinando o retorno do controle aos antigos donos.

Com a volta dos Blochs ao comando da emissora, a primeira medida foi tentar recuperar prestígio, e naturalmente recuperar o Jornal da Manchete foi o ponto de partida. O jornal estava sem nomes de peso, sem um apresentador fixo, um quadro que se alastrava por todos os setores. Contratar alguém de outro canal seria difícil por conta da situação financeira e do descrédito que assolava a imagem da emissora diante da classe trabalhadora.

Márcia Peltier era exceção: era jornalista, já estava na emissora, era nacionalmnte conhecida, mas apresentava na Manchete um programa vespertino de debates sobre comportamento e atualidades, diariamente das 18h às 19h, num estilo que estava em alta naquela época e seria eternizado por Silvia Poppovic na TV Bandeirantes. O Programa Marcia Peltier foi o único a não ser transfeido para São Paulo, durante a gestão do grupo IBF, por exigência da apresentadora.

Comandar um programa nestes moldes havia sido uma escolha de Peltier anos antes, quando largou a bancada do Jornal Hoje, na Globo, para apresentar o Sem Censura da TVE do Rio de Janeiro. A apresentadora havia se transferido para a Manchete, porém, ainda em 1991 para apresentar um programa semelhante, e por isso, não tinha planos de voltar para a bancada de um jornal diário. Mas o convite foi feito, com a promessa de Marcia voltar a ter um programa semanal no futuro. A jornalista encarou a missão e estreou como titular do Jornal da Manchete ainda naquele mês de maio de 1993, com apoio em São Paulo de Sérgio Rondino e em Brasília de Carlos Chagas . Os jornalistas tinham a missão de apresentar, respectivamente, as notícias de São Paulo e de Brasília(política), interagindo com Peltier através de uma tela, que na verdade era um “chroma-key”, um efeito de edição de vídeo. O JM também ganhou abertura e pacote gráfico novos, mas que, já em 1994, seriam substituídos novamente pois todos os telejornais passaram, de forma padronizada, a trazer um globo formado pela palavra “Manchete”. Nesta mudança, em 1994, o tema musical do jornal também foi levemente modificado, o que não ocorria desde 1991.

Em 1995 o jornal abandonou os tradicionais monitores da redação, ganhando um cenário amplo com um enorme mapa-mundi ao fundo. Logotipo, abertura e pacote gráfico também vieram renovados, e o telão em chroma-key ficou mais verossímil. A equipe de apresentadores era composta por: Marcia Peltier (âncora, Rio), Carlos Chagas em Brasília, Florestan Fernandes em São Paulo (substituindo Sergio Rondino, que assumiu o Jornal da Noite na Band). Villas Boas Corrêa comentava política ,Denise Campos de Toledo analisava o cenário econômico e o grande Zevi Ghivelder comentava os fatos mais importantes do cenário internacional.

Durante as Olimpíadas de 1996 a emissora levou Peltier para apresentar o jornal diretamente de Atlanta, sede do evento. Foi a primeira vez que um telejornal “se mudou” para a cidade mais importante de um determinado momento histórico. Marcos Hummel ficou no Rio, na bancada tradicional do jornal, apresentando as notícias do Brasil, mas Marcia era de fato quem comandava o noticiário a partir dos Estados Unidos, chamando, como de costume, Carlos Chagas, Florestan Fernandes, e o próprio Hummel, nos momentos em que deveriam entrar com as notícias “não olímpicas”. O conceito se repetiria em 1998, durante a Copa da França, e seria copiada por outras redes de TV a partir de então.

Marcia Peltier apresentou o Jornal da Manchete diretamente da sede das Olimpíadas, em 1996.

No início de 1997, Marcos Hummel, que vinha muito bem apresentando o sucesso “Na Rota do Crime” e o telejornal de fim de noite “Manchete Verdade”, passou a fazer par com Marcia no principal telejornal da emissora. “Verdade” ficou com Ronaldo Rosas, e Hummel continuou apresentado “Na Rota” às sextas.

Para acomodar dois apresentadores, não apenas a bancada foi substituída, mas também todo o cenário, a abertura e o pacote gráfico. O período também foi favorecido por um melhor desempenho geral da grade, liderado pela novela Xica da Silva. A audiência subiu. Mas Hummel voltou para o “Na Rota do Crime” e logo depois assinou com a Band para apresentar o Jorna da Band. Peltier ficou sozinha novamente na bancada.

Em 1998, em nova evolução (a melhor da década de 90), o jornal voltou a reforçar a ideia de um mesmo noticiário com três edições diárias. Desta forma, com cenário novo (trazendo de volta uma reformulada redação ao fundo), em março, re-estrearam o Jornal da Manchete Edição da Tarde, Jornal da Manchete, e o Jornal da Manchete Edição da Noite. O último, substituiu o Manchete Verdade, enquanto o vespertino ocupou o lugar (ou acabou sendo uma evolução) do “Edição da Tarde”. Todos tinham uma hora de duração, e por isso a “Manchete Esportiva” se transformou num bloco de esportes dentro da edição da hora do almoço. Marcia Peltier continuou à frente da edição principal. Elisa Mendes, na edição da tarde, e Claudia Barthel, na edição da meia-noite. Três mulheres sozinhas à frente dos telejornais de uma rede de TV: mais um movimento à frente do tempo.

Jornal da Manchete - 1 de maio de 1998, com Marcia Peltier

Peltier foi a primeira jornalista brasileira a entrar no Kremlin, em 96
Marcia Peltier foi a primeira jornalista brasileira a entrar no Kremlin, em 96

Marcia foi a mulher que mais tempo permaneceu na na bancada do horário nobre na TV antes de Fátima Bernardes. A polivalente jornalista, que entrou na Manchete para fazer um programa diário de debates sobre comportamento e atualidades antes de assumir oJM, teria ainda outro programa semanal, entre 1996 e 98, que idealizou, produziu e apresentou, o Marcia Peltier Pesquisa,. Com frequência era apelidada pela imprensa como “musa do telejornalismo”.

Com a crise naquele ano, porém, Márcia Peltier assinou contrato com a TV Bandeirantes, e Augusto Xavier assumiu a bancada se revezando na apresentação com Claudia Barthel.

O “Manchete Primeira Mão”, apresentado pelo veterano Berto Filho, estreou no maio de 1998 às 18h30. O propósito do jornal, segundo a emissora, seria “suprir a falta de jornalismo de qualidade que existia na TV nessa faixa de horário”. Tinha meia hora de duração e mostrava os principais fatos do dia.

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