O grandioso, inovador e plural Carnaval da Manchete

Emissora sempre deu enorme visibilidade ao carnaval do Brasil, aguçando ainda mais o interesse dos telespectadores. Trouxe inovações que permanecem até hoje, e deu grande visibilidade, o que é reconhecido pelos profissionais do setor.

O Carnaval sempre teve, por tradição, uma grande cobertura pelas revistas da Bloch, dada a admiração que seu Presidente possuía pela festa. Isso ficava claro quando chegavam às bancas suas revistas praticamente dedicadas ao espetáculo já na quarta-feira de cinzas, como Fatos & Fotos, Manchete e Amiga.

Com a TV Manchete não seria diferente: a programação era inteiramente dedicada ao espetáculo, durante não só os quatro dias de folia, mas também meses antes do evento com a realização de debates e exibição de boletins especiais, como “Feras do Carnaval” e “Esquentando os Tamborins”. O primeiro homenageava quem fez e fazia o carnaval, enquanto o segundo era informava e criava expectativa sobre os preparativos para o Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Já durante o evento vários programas também especiais eram levados ao ar, como o “Botequim do Samba” (roda de conversa e música na entrada do Sambódromo), “Debates de Carnaval” e o “Jornal do Carnaval”, além dos compactos dos desfiles ao longo do dia seguinte. A emissora ficou conhecida também pelas cômicas e quentes coberturas dos bailes de carnaval do Scala-Rio, principalmente o “Scala Gay”, além dos concursos de samba e fantasia.

Abrindo alas para o carnaval brasileiro

Além do carnaval do Rio, que nos anos 80 recebia atenção quase exclusiva das coberturas das TVs, a Manchete foi a primeira a exibir as festas de outros estados em rede nacional. Em 1988, por exemplo, exibiu as festas de rua e bailes por todo o resto do país. Em 1991 foi a primeira (junto à Globo) a exibir os desfiles de São Paulo. Em 1993 também foi a primeira a transmitir o carnaval de Salvador, numa época em que o Axé se popularizava devido ao estouro de Daniela Mercury no ano anterior. Em 1994, inaugurou o terceiro sambódromo de sua trajetória, com o Desfile das Escolas de Samba de Manaus, também exclusivo. Com uma das emissoras próprias em Recife, entrava com flashes mostrando o carnaval de rua de Olinda e o tradicional Galo da Madrugada da capital pernambucana, além dos grandes blocos de rua do Rio e de Ouro Preto-MG.

“Sambarelove” na Globo que causou o fim da parceria

As transmissões começaram já em 1984, primeiro carnaval após a inauguração da emissora. A Manchete cobriu com exclusividade os Desfiles da Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, depois que a TV Globo abandonou as negociações por conflitos com o governo de Leonel Brizolla. Segundo Boni, então superintendente executivo da líder, foi acertado com a Manchete que a emissora assumiria as conversas com o governo estadual e depois de adquirir os direitos, repassaria parte à então aliada. Mas a Manchete não honrou o compromisso, e sequer atendeu as ligações do executivo e de Roberto Marinho. Luiz Santoro, apresentador que na época ancorava a segunda edição do Jornal da Manchete, faz uma correção: ele próprio testemunhou um momento em que Adolpho Bloch atendia a uma ligação e explicava, em tom de lamentação, que não podia fazer aquilo (repassar os direitos à Globo). Há rumores que o governo do Rio tenha feito esta exigência à Manchete, já que o próprio governo havia declarado que a Globo queria reduzir os desfiles para adequar à sua grade.

Anúncio das transmissões do carnaval de 1984 com exclusividade pela TV Manchete
Anúncio das transmissões do carnaval de 1984 com exclusividade pela TV Manchete

Líder absoluta na estreia, sucesso de público e crítica

Paulo Stein entrou em cena com Fernando Pamplona para transmitirem o espetáculo, num total de 84 horas de transmissão. Além dos profissionais, equipes de reportagens estavam espalhadas por todo o recém-inaugurado sambódromo da Marquês de Sapucaí. O resultado foi devastador: a emissora de Adolpho Bloch liderou a audiência no Rio de lavada, chegando a uma diferença de 56 a 14 pontos na noite de segunda-feira, e tenhdo tido nos dois dias, média de 30 pontos. Foi a segunda vez que o Fantástico perdeu a liderança, e de novo, para a Manchete.

Estava instaurada uma rivalidade que beneficiaria muito o evento dali adiante. Ao custo de oficialmente ter acabado com a relação de parceria entre as redes cariocas, Globo e Manchete inovaram seguidamente desde então.

1985: Carnaval da Democracia

A grande repercussão do carnaval de 84 estimulou a criação da Liga Independente das Escolas de Samba, que passou a ser a detentora dos direitos de transmissão do Grupo Especial. Também por isso, e pegando carona na eleição do primeiro presidente não militar depois do Golpe de 64, em 1985 a Manchete dividiu as transmissões com a Globo e a Bandeirantes. Foi a primeira transmissão em pool (quando emissoras compartilham parte ou toda infra-estrutura para baratear os custos). Pelo acordo, a Globo ficaria responsável pelas imagens, e a Manchete, pelo áudio (ela era a única ainda que tinha som estéreo). E a Bandeirantes ficou de fora da parcria.

A emissora dos Blochs trouxe mais uma inovação: vinhetas com os sambas-enredo pelos meses anteriores ao evento, o que seria imediatamente reproduzido pela Globo nos anos seguintes. A Manchete não liderou mais a audiência, mas atingia índices que só a Globo conseguia usualmente. O então diretor de programação da emissora, Rubens Furtado, dizia que “o Carnaval era a chance que a Manchete tinha de mostrar que era maior e melhor que a Globo”, e que “Carnaval não dava lucro, mas trazia prestígio”.

Em 1986, sem a Band no circuito, a Manchete provocaria a Globo com um enorme logotipo posicionado num prédio em frente ao sambódromo, impossível de ser retirado das transmissões.

Em 1987 a Globo deu o troco e colocou um logo maior que o da Manchete. Um confronto de logotipos marcava a entrada do sambódromo. Neste ano, a Manchete disponibilizou mil funcionários na passarela do Samba e trouxe novidades como a câmera-robô, que dispensava a presença de um cameraman nos lugares onde isso seria impossível, e um helicóptero para fornecer imagens aéreas da Avenida.

Em 1988 a Globo revidou e levou os direitos de transmissão do carnaval, e não os repassou à Manchete. A emissora do Rússel resolveu ampliar a cobertura pelo resto do país, e lançou uma chamada provocativa.

Chamada do carnaval 1988, quando a Manchete ficou de fora dos desfiles.

Em 1989 a Globo voltou a dividir a transmissão com a Manchete em pool. Mas a Manchete continuou cobrindo com destaque o restante do país.

Logo do Carnaval da Manchete em 1989
Logo do Carnaval da Manchete em 1989

Em 1990 foi a estreia do casal 20 do telejornalismo, Leila Cordeiro e Eliakim Araújo, que no ano anterior haviam assumido o Jornal da Manchete. Eliakim passou a dividir as narração co Paulo Stein, e Leila era uma das repórteres. Os jornalistas fizeram questão de participar da tradicional cobertura.

Em 1991, Adolpho Bloch e suas empresas eram homenageados pela Escola de Samba Unidos do Cabuçu. A Manchete transmitiu o carnaval de SP pra todo o Brasil, junto à Globo, no ano em que o Sambódromo foi inaugurado. Foi o segundo sambódromo que a emissora estreou.

A primeira a cobertura de Salvador para todo o país

No ano de 1993, época problemática sob gestão do Grupo IBF, a emissora ficou sem exibir o desfile por falta de verbas e investiu tudo na transmissão do Carnaval de Salvador. Foi a primeira, portanto, a exibir a então crescente festa baiana para todo o Brasil. No ano seguinte a Band já entrou de cabeça no evento, e a Manchete, embora tivesse continuado a cobrir jornalisticamente com destaque, voltou a priorizar os desfiles do Rio.

Carnaval Axé 93
Axé em Manchete
Durante a difícil fase sob gestão do Grupo IBF, que em 1992 adquiriu 50% das ações e o controle da Manchete, a emissora perderia praticamente todos os seus artistas, jornalistas e programas de sucesso. Nessa onda, a renovação dos direitos de transmissão dos Desfiles do Rio e SP também ficaria de fora para o ano seguinte. Do limão, uma limonada: a emissora investiu nos trios baianos, num momento em que o Axé estava em franca ascensão. Foi a primeira a cobrir o evento para o resto do país, portanto, e teve índices de audiência acima do esperado.

Em 1994 a emissora voltou a dividir a tansmissão do Rio com a Globo, e em vez de exibir os desfiles de SP na sexta e sábado, ou da série A do Rio, a emissora inovou mais uma vez e exibiu pela primeira vez em rede os Desfiles das Escolas de Samba de Manaus. Neste ano o sambódromo da capital amazonense estava sendo inaugurado.

Em 1994, a Manchete exibiu também os desfiles de Manaus

Manchete agradece ao público, aos sambistas, e é homenageada no Botequim do Samba, ao fim das transmissões em 1994.

Em 1996, a Manchete exibiu novamente os desfiles do Rio, mas em vez de cobrir São Paulo, levou ao ar os grupos de Acesso do Rio. Como de costume, os desfiles tinham narração de de Paulo Stein, com comentário de Haroldo Costa, José Carlos Rêgo e Antonio Barreira, como mostra o vídeo de chamada.

Em 1997, público escolheu a garota das vinhetas de carnaval

Em 1997, com o slogan: Rede Manchete, Estação Primeira do Carnaval, a emissora tentava deixar claro a superioridade na cobertura . Os preparativos já eram mostrados desde outubro de 96, quando começaram a ir ao ar os boletins “Esquentando os Tamborins”e “Feras do Carnaval”. E ainda, uma eleição deveria escolher qual seria a Musa do Carnaval naquele ano. O telespectador telefonaria e optaria entre uma mulata, uma morena e uma loira, e ainda concorria a vários carros 0Km do modelo “Palio” e um importado na final. A vencedora foi a loira Marcela Leite. Além da escolha da musa, a emissora trazia como novidade também o Desfile das Escolas de Samba de São Paulo.

Vinheta 'Aconteceu, Virou Manchete' com Neguinho da Beija-flor e o concurso de Garota do Carnaval 97

Em 1999, por falta de recursos e devido à crise iniciada no final de 1998, a Manchete não teve recursos para transmitir o Carnaval. Nenhuma região foi coberta.