O grandioso carnaval da Manchete

A emissora deu grande visibilidade ao carnaval do Brasil, se dedicava exclusivamente durante o evento, e trazia inovações que permanecem até hoje, ajudando a mudar o patamar da festa nacional e internacionalmente.

Adolpho Bloch tinha admiração especial pelo poder que o carnaval tinha de unir brasileiros de culturas, setores e classes sociais tão diferentes. Por consequência, suas revistas faziam grandes coberturas do espetáculo. Isso ficava claro quando chegavam às bancas, já na quarta-feira de cinzas, edições extras de Fatos & Fotos, Manchete e Amiga, recheadas de imagens das festas de todo o país.

Com a TV Manchete não seria diferente. A programação passava a ser inteiramente dedicada ao evento durante os quatro dias de folia, e era precedida por uma série de programas e matérias especiais até quatro meses antes do evento. “Feras do Carnaval” e “Esquentando os Tamborins”, em formatos que variavam , estreavam em meados de outubro/novembro, homenageando personagens históricos e contemporâneos, e adiantavam os preparativos das escolas para os desfiles do ano seguinte.

Durante o evento, outros programas especiais eram levados ao ar, como o “Botequim do Samba” (roda de conversa e música na entrada do Sambódromo), “Debates de Carnaval” (que muitas vezes estreava duas semanas antes do evento) e o “Jornal do Carnaval“, que como o nome sugere, exibia matérias sobre as festas pelo país, com entradas ao vivo e antecipando o que viria. Os melhores momentos dos desfiles das Escolas de Samba, claro, tinham duração estendida, e muitas vezes narrações próprias.

A emissora ficou conhecida também pelas cômicas e quentes coberturas dos bailes de carnaval dos clubes cariocas (Scala e Monte Líbano), onde se destacaram festas como o “Scala Gay” e “Baile do Vermelho e Preto“, além dos tradicionais concursos de fantasia do Hotel Glória, apurações dos desfiles, e as festas das campeãs.

Abrindo alas para o carnaval brasileiro

Além do carnaval do Rio, que nos anos 80 recebia atenção quase exclusiva das coberturas de TV, a Manchete foi pioneira em transmitir, em rede nacional, a folia em outras regiões do país:

  • carnavais de rua e bailes: a partir de 1988, quando ficou sem os desfiles cariocas, a emissora transmitiu com grande destaque o carnaval de rua de Olinda, o Galo da Madrugada de Recife, e os blocos de rua do Rio de Janeiro e Ouro Preto-MG.
  • desfiles das escolas de samba de São Paulo: transmitiu para todo o país o carnaval paulistano em 1991, quando foi inaugurando o sambódromo da cidade (em pool com a Globo).
  • Carnaval de Salvador: em 1993 trocou as escolas de samba carioca pelos circuitos de Salvador, sendo a primeira a exibir os blocos baianos para todo o país. Naquela época, o Axé se popularizava devido, principalmente, ao estouro de Daniela Mercury no ano anterior.
  • Desfile das Escolas de Samba de Manaus: em 1994, inaugurou o terceiro sambódromo da sua , com a transmissão em rede do o desfile das escolas de samba de Manaus, no Amazonas.

Só deu Manchete

O primeiro foi em 1984, ano em que também houve a inauguração do sambódromo do Rio. Até então, todas as escolas desfilavam no domingo, em uma grande avenida da cidade, onde, todos os anos, eram colocadas e retiradas arquibancadas para o público. A maratona começava à tarde, embaixo do sol forte, e só terminava no amanhecer da segunda-feira. Além de caro, limitava consideravelmente o show das escolas. A Globo e eventualmente Band e TV Educativa, costumavam transmitir partes do evento.

Mas naquele ano, a estreante Manchete acabou conseguindo a exclusividade dos Desfiles da Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, depois que a TV Globo desistiu das negociações por conflitos com o governo de Leonel Brizola. Segundo Boni, então superintendente executivo da emissora, o abandono, na verdade, foi parte de um acordo com a Manchete, segundo o qual a jovem aliada assumiria a negociação com o governo estadual, e depois repassaria parte destes direitos à Globo.

Traição de carnaval

Mas, segundo Boni, a Manchete não honrou o compromisso (sequer atendeu ligações telefônicas). Luiz Santoro, apresentador que na época ancorava a segunda edição do Jornal da Manchete, faz uma correção: ele próprio testemunhou um momento em que Adolpho Bloch atendia a uma ligação e explicava, em tom de lamentação, que não poderia fazer aquilo (repassar os direitos à Globo). Anna Bentes Bloch, viúva de Adopho, em entrevista ao programa “Ver TV”(TV Brasil), afirmou que o governo do Rio realmente teria feito esta exigência à Manchete, já que o próprio governo havia reclamado à imprensa o fato da Globo ter exigido que os desfile continuassem apenas no domingo, para manter a transmissão adequada à sua grade. Mas quem conheceu o político de Adolpho acredita que ele possa ter criado esse argumento para amenizar o desgaste que sua decisão teria.

Anúncio das transmissões do carnaval de 1984 com exclusividade pela TV Manchete
Anúncio das transmissões do carnaval de 1984 com exclusividade pela TV Manchete

Líder absoluta na estreia, sucesso de público e crítica

Paulo Stein entrou em cena com Fernando Pamplona para transmitirem o espetáculo, fazendo uma dobradinha que se repetiria nos anos seguintes. Foram 84 horas de transmissões dedicadas ao carnaval. Além de Stein e Pamplona, equipes de reportagem estavam espalhadas por todo o recém-inaugurado sambódromo da Marquês de Sapucaí, mostrando ao telespectador o desenrolar da história que cada escola se propunha a contar. Stein declarou que buscavam fazer com que o espectador entendesse esse propósito, como numa peça de teatro. Uma abordagem que ia muito além do simples show de roupas brilhantes e mulheres semi-nuas.

O resultado foi devastador: a emissora de Adolpho Bloch liderou a audiência no Rio de lavada, chegando a uma diferença de 56 a 14 pontos na noite de segunda-feira, e tendo conseguido nos dois dias de desfiles uma média de 30 pontos. Foi a segunda vez que o Fantástico perdeu a liderança, e de novo, para a Manchete!

Estava instaurada uma rivalidade que beneficiaria muito o evento dali adiante. Ao custo de oficialmente ter acabado com a relação de parceria entre as redes cariocas, Globo e Manchete inovaram seguidamente desde então.

Deu Liga

A grande repercussão do carnaval de 84 estimulou a criação da Liga Independente das Escolas de Samba, que passou a ser a detentora dos direitos de transmissão do Grupo Especial. O governo estadual deixou de ser o negociador das transmissões a partir de 1985, fazendo a Manhete perder a preferência na renovação do evento. A emissora foi contemplada, junto com a Globo e também a Bandeirantes.

A emissora não perdeu tempo: justificou a não exclusividade com o período político que o Brasil nos 20 anos anteriores. Aproveitando o fim da ditadura militar, batizou sua cobertura de “O Carnaval da Democracia“.

Foi a primeira transmissão em pool com a Globo. Pool significa a parceria operacional entre duas ou mais empresas, que se juntam para compartilharem a mesma infra- necessária, evitando que ambas gastem dinheiro para mostrar a mesma coisa ao espectador. Faz bastante sentido para eventos pontuais, como e carnaval, que demandam grande movimentação de equipamentos e pessoas. Pelo acordo firmado, a Globo seria a responsável pela captação e transmissão das imagens, enquanto a Manchete ficaria a cargo de captar e irradiar o áudio de todo o evento. A distribuição levou em conta o fato da Manchete ser a única do país com som estéreo (e continuou sendo por muitos anos).

A emissora dos Blochs trouxe mais uma inovação: vinhetas com os sambas-enredo pelos meses anteriores ao evento, o que seria imediatamente reproduzido pela Globo nos anos seguintes. A Manchete não liderou mais a audiência, mas atingia índices que só a Globo conseguia usualmente. O então diretor de programação da emissora, Rubens Furtado, dizia que “o Carnaval era a chance que a Manchete tinha de mostrar que era maior e melhor que a Globo”, e que “Carnaval não dava lucro, mas trazia prestígio”.

Em 1986, sem a Band no circuito, a Manchete provocaria a Globo com um enorme logotipo posicionado num prédio em frente ao sambódromo, impossível de ser retirado das transmissões.

Em 1987 a Globo deu o troco e colocou um logo maior que o da Manchete, num duelo de logotipos impossível de ser apagado eletronicamente.. A Manchete também disponibilizou mil funcionários na passarela, e trouxe novidades como a câmera-robô (diferenciais não entravam no pool), que dispensava a presença de um cameraman em lugares onde isso era impossível. Também contou com um helicóptero para fornecer imagens aéreas da avenida.

Em 1988 a Globo revidou e levou os direitos de transmissão do carnaval, e não os repassou à Manchete. A emissora do Rússel resolveu ampliar a cobertura pelo resto do país, e lançou uma chamada provocativa.

Chamada do Carnaval 1988

Chamada do carnaval 1988, quando a Manchete ficou de fora dos desfiles.

Em 1989 a Globo voltou a dividir a transmissão com a Manchete em pool. A Manchete, porém, não deixou de dar destaque às festas de rua do país.

Logo do Carnaval da Manchete em 1989
Logo do Carnaval da Manchete em 1989

Em 1990 foi a estreia do casal 20 do telejornalismo, Leila Cordeiro e Eliakim Araújo, que no ano anterior havia assumido o . Eliakim passou a dividir as narração com Paulo Stein, e Leila foi repórter na avenida. Os jornalistas fizeram questão de participar da tradicional cobertura.

Em 1991, Adolpho Bloch foi samba-enredo da Unidos do Cabuçu, escola de samba do grupo de Acesso do Rio. A Manchete transmitiu o carnaval de SP pra todo o Brasil, junto à Globo, no ano em que o Sambódromo foi inaugurado. Foi o segundo sambódromo que a emissora estreou. Nas vinhetas, a Manchete continuou comunicando que fazia uma cobertura do carnaval de todo o Brasil.

Vinheta com Elba Ramalho cantando tema da Manchete

Em 1992, chamada prometia 200 hs. de cobertura

1993: a primeira cobertura de Salvador em rede nacional

No ano de 1993, época problemática sob gestão do Grupo IBF, a emissora ficou sem os direitos dos desfiles do Rio, pois o seu novo controlador deixou de pagar as parcelas à Liesa. A estratégia foi transmitir o Carnaval de Salvador, mostrando o evento, pela primeira vez, para todo o país. Foi a primeira, portanto, a exibir a então crescente festa baiana para todo o Brasil. No ano seguinte a Band já entrou de cabeça no evento, e a Manchete, embora tivesse continuado a cobrir jornalisticamente com destaque, voltou a priorizar os desfiles do Rio.

Carnaval Axé 93
Axé em Manchete
Durante a difícil fase sob gestão do Grupo IBF, que em 1992 adquiriu 50% das ações e o controle da Manchete, a emissora perderia praticamente todos os seus artistas, jornalistas e programas de sucesso. Nessa onda, a renovação dos direitos de transmissão dos Desfiles do Rio e SP também ficaria de fora para o ano seguinte. Do limão, uma limonada: a emissora investiu nos trios baianos, num momento em que o Axé estava em franca ascensão. Foi a primeira a cobrir o evento para o resto do país, portanto, e teve índices de audiência acima do esperado.

Em 1994 a emissora voltou a dividir a tansmissão do Rio com a Globo, e em vez de exibir os desfiles de SP na sexta e sábado, ou da série A do Rio, a emissora inovou mais uma vez e exibiu pela primeira vez em rede os Desfiles das Escolas de Samba de Manaus. Neste ano o sambódromo da capital amazonense estava sendo inaugurado.

Imagem de O grandioso carnaval da Manchete
Em 1994, a Manchete exibiu também os desfiles de Manaus

Agradecimento ao público e aos profissionais

Manchete agradece ao público, aos sambistas, e é homenageada no Botequim do Samba, ao fim das transmissões em 1994.

Em 1996, a Manchete exibiu novamente os desfiles do Rio, mas em vez de cobrir São Paulo, levou ao ar os grupos de Acesso do Rio. Como de costume, os desfiles tinham narração de de Paulo Stein, com comentário de Haroldo Costa, José Carlos Rêgo e Antonio Barreira, como mostra o vídeo de chamada.

Chamada dos desfiles do Rio em 1996

Garota carnaval 97 da Manchete

Em 1997, com o slogan: Rede Manchete, Estação Primeira do Carnaval, a emissora tentava deixar claro a superioridade na cobertura . Os preparativos já eram mostrados desde outubro de 96, quando começaram a ir ao ar os boletins “Esquentando os Tamborins”e “Feras do Carnaval”. E ainda, uma eleição deveria escolher qual seria a Musa do Carnaval naquele ano. O telespectador telefonaria e optaria entre uma mulata, uma morena e uma loira, e ainda concorria a vários carros 0Km do modelo “Palio” e um importado na final. A vencedora foi a loira Marcela Leite. Além da escolha da musa, a emissora trazia como novidade também o Desfile das Escolas de Samba de São Paulo.

Samba da Manchete - 1997

Vinheta 'Aconteceu, Virou Manchete' com Neguinho da Beija-flor e o concurso de Garota do Carnaval 97

Em 1999, por falta de recursos e devido à crise iniciada no final de 1998, a Manchete não transmitiu os desfiles, nem fez cobertura especial sobre o evento. Nenhuma região foi coberta. O departamento de apenas cumpria a legislação, que exigia 30min/dia de notícias. E olhe lá…

Por Diogo Montano

Diogo Montano é Bacharéu em Ciência da Computação, pós graduado em Gestão de Negócios, e trabalha há quase vinte anos unindo duas coisas que sempre gostou: comunicação e tecnologia. Cresceu assistindo à Globo e Manchete(imagens sem interferências na baixada fluminense), e em 1999, ainda antes de entrar na faculdade, publicou a primeira versão deste site, logo após a venda da emissora. Atualmente trabalha como PM(Product Manager) no Globoplay.