1988: Vingança no carnaval, troca de diretores e o sucesso de Jaspion

Olho por Olho…

A emissora entrou pelo ano de 1988 com uma dívida que beirava os US$ 34 milhões, boa parte ainda da época da estruturação das cinco emissoras, cerca de seis anos antes. Mas se por um lado a Manchete tinha custos altos de produção, por outro se consolidava em audiência e reconhecimento da crítica ano após ano, um paradoxo que nunca deixaria de fazer parte da história da “TV do ano 2000”.

Mesmo com esta situação financeira delicada, Adolpho Bloch reinvestiu em novos projetos e, já em agosto, a linha de shows foi reativada. Foram ao todo 19 programas que estrearam, entre eles o humorístico “Cadeira do Barbeiro” com Lucinha Lins e Cacá Rosset, e a novela policialesca Olho por Olho. Ainda neste mesmo ano, em julho, a Manchete cobriu as Olimpíadas de Seul.

Contragolpe global

Pela primeira vez a emissora ficou fora das transmissões dos desfiles cariocas. Já sem Brizolla governando o Rio desde o ano anterior (seu último ano de governo foi em 1986), a Globo conseguiu adquirir os direitos totais dos desfiles de 1988, e pôde finalmente dar o troco na Manchete. Mesmo apelando à justiça, alegando que o evento foi não foi negociado honestamente, ficou de fora da transmissão da qual fazia questão de se colocar como referência. O jeito foi cobrir as festas de ruas e bailes com intensidade por todo o país, o que a levou a dois movimentos com ‘benefícios’ bem distintos:

  1. Deu destaque total ao carnaval das outras regiões do país, com mais tempo de exibição dos trechos das festas pelo país em rede nacional.
  2. Travou uma disputa indecente com a Bandeirantes pela audiência dos ‘famosos’ bailes da madrugada, com “closes” bem abusados. O governo ficou extremamente incomodado com o que considerou como pornografia na TV aberta, e deputados queriam pedir punições sérias e alguns mais exaltados falavam até em cassação. As emissoras se retrataram e nos anos seguintes já não haveria mais um departamento de repressão à liberdade de imprensa, já que a censura acabaria com a Constituição de 1988. Mas o episódio serviu de motivo para Alexandre Garcia sair da emissora e ir para a Globo. O jornalista alegou que, quando fez lobby para que a concessão fosse dada à Manchete, garantiu aos militares que a Bloch não mostraria semi-nudez feminina como era costume nas suas revistas.

A chamada da Manchete tinha sérias críticas à exclusividade da Globo, ironicamente.

Febre japonesa invade o Brasil

Em fevereiro estreou o seriado japonês Jaspion, do gênero tokusatsu, que vinha sendo produzido aos lotes em seu país de origem. Repleto de cenas de ação protagonizada por super-heróis armados contra mosntros alienígenas, o formato perduraria pelos anos posteriores através de uma série de outras atrações semelhantes. Jaspion fez um enorme sucesso, incentivando a emissora a lançar ainda no mesmo ano Changeman, que alcançou ainda maiores índices de audiência e virou mania entre as crianças . Posteriormente Flashman e diversas outras nos anos seguintes. Os programas eram exibidos pela manhã e reprisados no final da tarde, dentro do Clube da Criança, alavancando a audiência do programa e aumentou a visibilidade da já então bem avaliada Angélica, que seria já vista como uma nova estrela.

Em junho a Manchete já poderia ser vendida, total ou parcialmente, de acordo com a Lei das comunicações. Adolpho Bloch sondou possíveis sócios para a TV já no ano anterior, propondo a cessão de 40% da empresa, mantendo assim o controle acionário com a família. Os grupos Odebrecht, Paranapanema, a mexicana Televisa, a norte-americana Viacom, e até Orestes Quercia negociaram ao longo de quase 1 ano, mas no fim, nada se concretizou.

Ainda em junho Wilson Cunha estreava o Cinemania, direcionado aos amantes da sétima arte. O programa ia ao ar aos sábados, e trazia prestígio.

Na dramaturgia a novela Carmem chegava ao final, mas sua substituta ainda não estava pronta. A emissora resolveu reprisar Dona Beija, cuja campanha de relançamento teria irritado a atriz Maitê Proença pelo forte apelo sensual. A atriz deixou a Manchete, depois de praticamente 3 anos trabalhando no canal. José Wilker também voltou para a Globo porque “na Manchete, a TV financiava a editora“, em suas palavras, um “privilégio” que não se justificava diante da tendência do mercado (encolhimento do mercado impresso ante um crescimento do audiovisual).

No fundo, nos anos seguintes, diferentes analistas repetiriam esta tese como uma causa para a fragilidade do caixa da emissora. Ou seja, para manter as revistas num patamar de custos que não mais se pagavam com as receitas das próprias revistas, o grupo se enrolava sem fazer uma alocação de custos clara, que pudesse deixar expostas as perdas com divulgações cross-media, pagamento de salários e de custos de estrutura com que eram compartilhados entre empresas. Tipicamente um (mau)comportamento peculiar de grandes conglomerados familiares à época.

Além de Wilker e Proença, Rubens Furtado (desde a estreia da emissora no cargo de diretor-geral) troca a Manchete pela Bandeirantes.

Mas não foi só de perdas de profissionais renomados que o ano ficaria marcado. Nilton Travesso foi contratado para ser diretor de Programação e fez uma proposta para que (o então jovem talento) Jayme Monjardim assumisse a Direção Artística (e de dramaturgia). Monjardim havia deixado a Globo, pois queria trabalhar com cinema, mas viu na Manchete a chance de dar vazão à parte das inovações que pretendia. A dupla seria uma das responsáveis pela fase de sucessos que se sucederia.

Em agosto, substituindo a reprise de Dona Beija, entrou enfim no ar a novela Olho por Olho, escrita novamente pelo autor José Louzeiro, com o claro objetivo de repetir o sucesso e a repercussão de Corpo Santo. Idealizada ainda na gestão de José Wilker, porém dirigida por Atilio Riccó e Marcos Schetman, tinha Georgia Gomide, Débora Duarte, Henrique Martins e Herson Capri no elenco. Não chegou a atingir índices animadores de audiência, mas cumpriu seu papel.

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